terça-feira, 24 de agosto de 2010

A caixa




Aqui estou eu de novo, na caixa. As quatro paredes, o chão, o teto. Já perdi a conta de quantas vezes eu estive aqui, vendo tudo desse mesmo modo. Eu estou numa caixa e não tenho como sair dela. A porta fechada, a janela fechada, nada de fora contamina o ambiente, nem a luz. Isto é só uma caixa.
O brilho da tv ilumina a caixa, é a única luz. As imagens passam mudas e sem significado. E quando eu as deixo falar e tento preencher minha mente, só tenho vontade de gritar.
            Quando eu era pequena, sempre que brincava de Barbie, desejava uma máquina que encolhesse e esticasse as coisas. Esticasse para que eu pudesse usar as roupas de minhas bonecas, e encolhesse para que eu pudesse entrar na casinha delas. Agora eu vejo que estou dentro daquela casa. Estou dentro da caixa de sapatos onde se fazia o quarto. Quando se colocava a tampa, e nada mais se via daquele minúsculo quarto, eu imaginava como seria lá dentro. Eu queria tanto entrar... E agora aqui estou, deitada, olhando para a tampa da caixa, querendo que alguém abra, para que eu possa sair, ou pelo menos ver o céu escuro.
Eu sei que poderia abrir a porta, e poderia colocar os pés lá fora, e eu poderia andar na noite fria, sob estrelas lindas e distantes. Mas não, na verdade eu não poderia, porque não há nada lá fora, porque não há nada lá fora para mim, sozinha. Quem sabe algum dia?




Cristiane Neves
2004

terça-feira, 17 de agosto de 2010

INTRODUÇÃO AO PRÍNCIPE DAS MARÉS

         A primeira vez que assisti ao Príncipe das Marés eu tinha cerca de 10 anos da idade. A impressão que me ficou foi de uma história legal em um filme longo e lento, com algumas cenas marcantes e cômicas.
         A verdade é que, quase duas décadas depois, as únicas coisas que me lembrava do filme era que tinha a Barbra Streinssand e que havia uma cena em que o protagonista humilhava o violinista esnobe ameçando destruir um Stradivárius. Nada mais permaneceu em minha memória, além daquelas primeiras impressões.
         Ontem eu assisti ao filme, mais porque estava ali, na minha frente, do que por interesse real. A impressão que me restou foi algo completamente diferente, de um filme curto (quando percebi, já estava acabando), de um grande senso de humor negro (ri demais na cena em que a esposa diz ao marido que outro homem quer se casar com ela e ele lhe responde: "O que você quer? Uma carta de recomendação?"), dinamismo e poesia.
        O fato é que a cada época de nossas vidas somos pessoas diferentes e teremos visões diferentes acerca de filmes e livros com os quais temos contato. Mas disso eu pretendo falar em outra semana, talvez na próxima. Queria apenas fazer uma breve introdução (bom, talvez não tão breve), para explicar o porquê da resenha que segue.
       De qualquer forma, quem ainda não viu o Príncipe das Marés provavelmente não terá interesse no texto logo abaixo, mas fica aqui a dica para a próxima vez que for à locadora (apesar de que nem sei se este filme existe em DVD, pode ser necessário recorrer ao VHS ou baixar na internet, hehe)

A verdadeira Catarse


ou Uma Breve Resenha Sobre O Príncipe das Marés



        Há pouco tempo eu escrevi sobre como comédias românticas, através de seu mínimo de plausibilidade, se tornam ainda mais irreais do que histórias de magia e ficção. Tal fato deixa um gosto residual desagradável, maculando a catártica experiência de mergulhar em uma leve distração por uma hora e meia.
        Por outro lado, outros filmes nos apresentam a realidade como ela é, de forma que nos é possível identificar e relacionar a situações, acontecimentos e pessoas, tornando a experiência cinematográfica mais completa, uma vez que podemos compreender melhor a motivação dos personagens.
        Ademais, tais filmes ainda nos ensinam a realidade, podemos compreender melhor o mundo em que estamos inseridos quando o vemos com olhos de espectadores e não atores.
        É claro que toda esta reflexão tem uma origem: O Príncipe das Marés. Filme de 1991, estrelado por Nick Nolte e Barbra Streissand, e dirigido pela própria estrela judia, nos apresenta um mundo grotesco em certos momentos e muito belo em outros, mas sempre mostrado de forma poética e sem perder a realidade e plausibilidade.
        Sendo absolutamente contra estragar filmes para quem ainda não os viu, mesmo diante das quase duas décadas do lançamento, não pretendo falar aqui dos mistérios do filme, centrados no que teria acontecido na infância dos irmãos Wingo. Mas isso não me impedirá de comentar o filmes. Aliás, faço um alerta: se por um lado não divulgarei o segredo da infância de Savana, por outro alguns pontos chaves da história podem ser revelados. Portanto, se ainda não tiver visto o filme, prossiga com cautela, ou simplesmente não prossiga.
        Quando digo que trata da realidade, não é que todos nós somos traumatizados e danificados à extensão de personagens como Tom ou Savannah. Mas é verdade que todos temos cicatrizes psíquicas que mancham o passado e determinam o presente, visto terem afetado a formação de nossa personalidade.
Alias, recorrente por todo o enredo é a desconstrução da perfeição. A história até começa nos mostrando crianças felizes, filhas de pais amorosos, mas ao passar do filme começam a ser dissecadas as camadas que escondem os segredos profundos daquela família.
        Desta forma, a derrocada das primeiras aparências acontecem ao longo de toda a película. Temos, por exemplo, a seriedade profissional da Dra. Lowenstein, que sempre aparece com cabelos impecáveis e roupas sóbrias quando se mostra profissional, mas com cabelos ondulados e roupas folgadas, quando em momentos de descontração, em que se permite ser ela mesma, e não a psiquiatra.
        O tédio e a angústia adolescente de Bernard, o sorriso simpático do violinista Woodruff ao passar por Tom na sala de espera da Dra. Lowenstein, são as primeiras cenas de apresentação de personagens, que depois se mostram ser pessoas diferentes daquelas que aparentavam.
        E não é bem isso o que temos em nosso dia a dia? Impressões erradas das pessoas, que procuram sempre se esconder atras de máscaras, seja se fazendo desagradáveis para afastarem as outras pessoas, seja personificando a simpatia, para as atrair, escondendo a verdade pretenciosa que existe em si.
        Falando ainda em realidades que o filme traz a tona, o que não dizer dos relacionamentos do personagem principal Tom. Com uma infância difícil marcada por uma mãe forte, decidida e ambiciosa, e um pai abusivo e ausente, além de traumas severos, por mais que tente se afastar de sua família, Tom não parece ser capaz de fazê-lo. Aliás, como ele aprende ao final, a aproximação é até mesmo necessária:

Tom Wingo: Em Nova York eu aprendi que eu precisava amar minha mãe e meu pai em todas as suas falhas, sua humanidade ultrajante. E em famílias, não existem crimes imperdoáveis.

        Com os problemas conjugais é o mesmo. Diante de uma situação que parece insuportável, sua atitude é a inércia. Em uma referencia ao título, ele é como uma alga na areia da praia, esperando que a maré suba para levá-lo de volta consigo.
        Enquanto isso, na praia, ou melhor, em Nova York, Dra. Lowenstein passa por problemas conjugais ela própria, mas é capaz de se libertar da situação, com um empurrão de Tom, é claro. Pois se ele permanece estático em relação à própria situação no sul (remetendo, inclusíve, à sua mobilidade diante do trágico acontecimento do passado de sua família), o mesmo não pode ser dito de sua atitude em relação à vida das pessoas com quem teve contato no norte.
        E aqui, mais uma vez, o filme se apresenta como um retrato da realidade. Se em uma comédia romântica o certo é que Tom ficaria com a Dra. Lowenstein no final, sabemos que na vida real os romances nem sempre funcionam, muito pelo contrário.
        Enquanto Tom ajudou a Dra a se libertar da vida triste que levava, ela, por sua vez, como o próprio Tom diz, o tornou apto a retornar à sua própria família. E ela, tendo por profissão analisar as pessoas, sabia muito bem o que a aguardava.

Susan Lowenstein: O que vai acontecer quando Sally o quiser de volta? Ela vai te querer, você sabe.
Tom Wingo: Por que tem tanta certeza?
Susan Lowenstein: Eu provei a mercadoria.

        A propósito, no que diz respeito à minha resenha anterior, sobre Harry e Sally, lembro de ter destacado que os diálogos eram muito bons, do tipo que dificilmente conseguimos reproduzir na vida real. Já em O Principe das Marés, digo que os diálogos também são maravilhosos, mas me parecem muito mais plausíveis de serem ditos em nosso dia a dia. Estas linhas por exemplo:

Susan Lowenstein: Admita. Você a ama mais.
Tom Wingo: Não. Não mais, Lowenstein. Apenas há mais tempo.

        Nós nunca veríamos estas palavras em nossas comédias românticas produzidas em massa, no entanto são falas como estas que representam com perfeição a imperfeição do mundo. Filmes deste tipo não deixam gosto residual ruim, não trazem aquela depressão após a euforia. O gosto ruim, a depressão, já existiam. Vê-los na tela apenas ajuda a expulsá-los de nós mesmos, possibilitando a realização da verdadeira catarse.

Cristiane Neves
17/08/10
02:03

terça-feira, 10 de agosto de 2010

A natureza humana




            Estava voltando do trabalho, apressada para chegar em casa e estudar. Na minha frente iam dois senhores, suponho que aposentados, ambos na casa dos 70. Andavam devagar, atrasando meus planos. Ao ultrapassá-los ouvi o homem mais alto dizer o seguinte fragmento de frase: “A natureza humana é uma coisa que...”
            Diminui a velocidade para ouvi-lo, mas o barulho da hora do rush na grande avenida tornou impossível compreender as palavras. Os carros, as pessoas no ponto de ônibus, as crianças que saiam da escola conversando e rindo alto, mataram a frase, impediram-na de chegar aos meus ouvidos.
           Voltei para casa frustrada, pensando interminavelmente naquele fragmento. O que seria, ou melhor, como seria a natureza humana? O que teria dado àquele senhor o direito de falar com tamanha firmeza de tão delicado e importante assunto? Teria ele resolvido o mistério que nos assombra, aprendido aquilo que procuramos entender desde antes de Aristóteles? Ele detém talvez, a chave para a melhor convivência entre as pessoas, uma vez que compreenda a sua natureza através de uma fórmula única aplicável a todos os seres humanos!
            Penso que talvez devesse ter me virado e lhe pedido, implorado, rastejado a seus pés se preciso para que me revelasse aquele precioso segredo. Mas me parece que aquela é uma sabedoria que só se alcança com a idade. Deus, para manter a ordem das coisas, fez com que ruídos altos superassem a voz dos sábios, em pleno dia do silêncio, para que eu não tivesse conhecimento adiantado dos mistérios da natureza humana.
E permanece aí um segredo ao qual ainda não tive acesso, e ao que parece me permanecerá vetado até que eu tenha, entre tantas outras coisas, sofrido, me alegrado, me decepcionado, me surpreendido pelas pessoas o suficiente para merecer ter esse assunto elucidado. Até lá tudo o que poderei fazer é arriscar.
            Me imagino daqui a 50 anos, quando já tiver entrado no pouco cobiçado clube particular dos experientes aposentados filósofos. Estarei um dia andando com um amigo, ou talvez estaremos sentados em uma praça, alimentando os pombos ou admirando a rara noite estrelada, e poderei virar para meu amigo e dizer “é meu caro, se tem uma coisa que eu aprendi em todos os anos de vida é o fato da natureza humana ser uma coisa que...”, e exporia minhas certezas acerca da humanidade, às quais meu amigo responderia com um balançar de cabeça, acompanhado ocasionalmente por “é verdade, é verdade...”. E eu ainda concluiria dizendo que “se já tivéssemos nascido sabendo disso, a vida nos teria sido bem mais fácil!”


Cris Neves
7/05/2003 - Dia do Silêncio
           

terça-feira, 27 de julho de 2010

JUIZ DE FORA – CARATINGA




     Feriado! Tempo de descansar, passear, voltar para casa. Entro no ônibus e sento em uma poltrona torcendo para que ninguém se sente ao lado. Minha esperança se vai quando um homem ocupa a cadeira vazia. Recebo uma mensagem de meu irmão no celular e o respondo. Depois, pego o xerox de um texto do Barthes que devo ler para segunda-feira (eu disse algo sobre descansar?). Pensava estar embarcando em uma viagem interurbana. Tratava-se, na verdade, de uma viagem intrapessoal que em nenhum momento se tornou interpessoal.
     Estamos talvez assistindo a um declínio das relações sociais como as conhecemos. Isso eu posso perceber claramente aqui mesmo, no ônibus. Cada um se atém a seu lugar determinado: uma cadeira, um número (janela ou corredor?). Bom, pelo menos o homem urbano-pós-moderno se submete a isso, acostumado à individua-lidade e a pequenos espaços: apartamentos, escritórios, elevadores... Ele se acomoda em seu lugar delimitado pelos braços da poltrona.
     Uma mulher chora lá atrás. Diz entre lágrimas, contendo a voz para que não saia mais que um sussurro soluçante: “Cachorro, seu cachorro... galinha”. Mas os filhos do ambiente urbano industrial agem como se nada ouvissem, surdos às lágrimas alheias, mudos às suas próprias.
     Há ainda no ônibus pessoas livres. Vivem em lugares amplos, numa imensidão de céu e campo. Estes descansam sob a silhueta que as árvores lançam sobre o capim. Os urbanos, por sua vez, vivem à procura de um fio de luz entre as gigantescas sombras que os prédios projetam e engolem as ruas lotadas de seres vivos e máquinas.
     Mas os livres habitantes da natureza não cabem nessa caixa de metal com rodas. Por isso eles se expandem para além do espaço reservado a eles. Comunicam-se, contam seus dramas, ouvem o choro e o comentam. Não são indivíduos simplesmente. São persona-gens cada vez mais raros que sabem conjugar a sua própria individualidade, sua personalidade, sua identi-dade, com a coletividade.
É um paralelo curioso a se traçar, uma ironia mesmo, que aqueles que vivem em espaços amplos, cercados mais pela natureza que pela humanidade, sejam mais envolvidos em relações interpessoais (não só com velhos compadres, mas também com totais desconhecidos), enquanto que o homem tecnológico, sempre cercado de outros homens, em cidades com centenas de milhares, até mesmo milhões de habitantes, se afaste sempre mais (à proporção do aumento da população) dos outros de sua espécie.
O homem a meu lado brinca com o celular. Mais uma ironia da pós-modernidade com sua tecnologia. O objeto que deveria unir as pessoas no prazer da comunicação, prende esse homem ao mundo virtual.
Ah! O mundo virtual! Eis aí material para grandes discussões. É a esse espaço inexistente fisicamente que o produto racional das cidades busca agora para poder expandir suas relações pessoais e saciar sua necessidade intrínseca de se comunicar. As ruas não são mais seguras e a vida segue um ritmo alucinante que mal cabe nas 24 horas do dia. Assim a solução é buscar o não-espaço e o não-tempo. E o que nos falaria o poeta Baudelaire desse flâneur pós-moderno? Diria ele que este homem não estaria somente buscando o não-tempo e o não-espaço, mas ficando preso a um não-sabor, um não-tato, um não-cheiro, enfim, uma não-vida?
O fantasma de Chaplin em Tempos Modernos grunhe a meu lado e me traz de volta ao ônibus. Ele está revoltado, pois a serpente bateu na parede da tela e morreu. TOTAL DE PONTOS: 948. O recorde não foi batido, o jeito é recomeçar o jogo. Percebo, então, que eu também estou presa a uma não-comunicação (maior vergonha a uma profissional da área), enquanto me concentro em meu escrito, trêmulo pelo sacudir do ônibus, vacilante ao rodapé de Barthes.
E então aqui estou! Filha do progresso e feliz por isso. O critico, mas não o nego. Eu que também estou atenta aos momentos em que meu celular recupera o sinal, sei que minha natureza é a não-natureza. Muito de meus iguais ainda tentam negar a si próprios, trocar de pele e adotar o campo. A grande maioria não consegue. Os que se adaptam, deve ser por algum defeito de fabricação, erro de programação.
O homem guarda o celular e resolve tentar dormir. A mulher já se acalmou faz algum tempo e um adolescente no banco de trás ouve diskman a uma altura que de onde estou consigo reconhecer a música: Unforgettable. Lá fora as galinhas ciscam no quintal. O ônibus segue viagem.


Cris Neves
14/11/2002

terça-feira, 20 de julho de 2010

O Diálogo




O cenário é um bar cheio. Duas mesas de sinuca onde pessoas menos bebadas ganham das que já tomaram uns copinhos a mais. Amigos reunidos conversam, fofocam, namoram nas mesas espalhadas pelo ambiente. Em uma delas Ela está entediada, segurando vela para a amiga que, neste momento, parece estar usando a própria língua para contar os dentes de alguém que acabou de conhecer.

Um Cara se aproxima. Um Cara a acha atraente e a aborda. Ela está feliz com a iniciativa. Um Cara é bonito. O diálogo tem início:


Um Cara: Posso te conhecer?

Ela: “Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!”

Um Cara: Ah, mas eu tô aqui, gatinha? Qual o seu nome?

Ela: “O meu nome é Severino,
não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria.
Deram então de me chamar
Severino de Maria”

Um Cara: Severino de Maria? Que doido! Então, mas cê é daqui mesmo?

Ela: “Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?”


Um Cara coça a cabeça tentando compreender.


Um Cara: Viveu aqui e voltou? Xô ver se entendi: cê é daqui, mas não mora mais aqui... Tá visitando, então? E o que tá achando do lugar?

Ela: “Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.”

Um Cara: Cê fala muito esquis..., digo, diferente. O que você faz?

Ela: “Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.”

Um Cara: Poeta? Então tá explicado... Eu não entendo dessas coisas não. Sabe o que eu adoro? Surfar! Sempre que posso dou um pulo no litoral. Você curte pegar onda?

Ela: “a onda anda
aonde anda
a onda?
a onda ainda
ainda onda
ainda anda
aonde?
aonde?
a onda a onda”

Um Cara: Ow, o que cê fumou, garota?!? Viajou bonito agora!

Ela: “Eu durmo e vivo ao sol como um cigano,
Fumando meu cigarro vaporoso,
Nas noites de verão namoro estrelas,
Sou pobre, sou mendigo e sou ditoso...”

Um Cara: Namora estrelas? Tá doida?

Ela: "Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso"! E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.”


Momento de silêncio constrangedor.


Um Cara: Hã, meu amigo tá me chamando ali. Tipo, depois a gente se fala mais, então...


Um Cara se afasta. Ela suspira e volta a encarar o copo de cerveja sobre a mesa. Algumas mesas atrás, mais ao fundo do bar, Ele a observava. Ouviu partes da conversa. Interessou e agora aproxima-se  d’Ela.


Ele: “Eu, eu mesmo...
Eu, cheio de todos os cansaços
Quantos o mundo pode dar. –
Eu...
Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas, ao que parece,
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças...”


Os olhos d’Ela brilham.


Ela: “E eu vos direi: "Amai para entendê-las:
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”


Falavam a mesma língua e continuaram a falar até que um dia a morte (angústia de quem vive) ou a solidão (fim de quem ama) os procurou.

FIM

Cristiane Neves
15/07/10
1:28

terça-feira, 13 de julho de 2010

Fumaça




O mundo não é um sonho, é paupável, visível. Ele está à minha volta com todas as suas formas, cartazes políticos, casas antigas, vitrines iluminadas e igrejas (Deus espia pelos vitrais, anotando quem faz o sinal da cruz, pois a esses será permitido entrar em sua casa).
A minha idéia de mundo que não é real. Mas também não é sonho. É fumaça impossível de se conter, escapando por meus dedos para as camadas mais altas da atmosfera. E esse mundo nunca será tangível, para que eu possa fazer parte dele.
Enquanto isso eu ando pelas ruas da cidade numa agradável noite morna. Minha vontade era sentar na calçada, sentir o calor de suas pedras. Mas eu não posso, tal como não posso subir no banco da praça e cantar bem alto, liberando toda a energia armazenada e sem escape, sentindo as carícias da brisa fraca que carrega meu canto.
Eu não posso e ninguém pode. Todos querem, mas ninguém o faz. Calam-se ante as (in) conveniências da sociedade. Exceto os loucos. Eles se livram das amarras morais para cairem nas amarras das camisas de força.
Eu ando e sinto através de meus sapatos as pedras da calçada. Elas estão lá, são reais, sólidas e crueis. Aterrorizantemente crueis.

Cristiane Neves
22/08/04