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sábado, 22 de janeiro de 2011

A triste história do desaparecimento de Ana




Foi em uma terça-feira que Ana desapareceu. Bom, na verdade, embora ela não soubesse, já havia um tempo que estava sumindo, apenas não tinha percebido. Talvez se tivesse prestado maior atenção nos caminhos que sua vida seguia isso não teria acontecido. Mas, ó, pobre Ana! Ela mesma não notou a si própria.
Ana foi a terceira criança nascida em uma família extensa, possuíndo três irmãs e três irmãos. Adalgisa era a mais velha, a mais esperta, a mais respeitada dos sete. Abelardo a seguiu, e, por ser um “menino-homem” sempre recebeu os privilégios que sua condição assegurava, quais sejam, a preferência do pai, do avô e dos demais membros masculinos da família.
Os gêmeos idênticos Anselmo e Antenor foram a quinta e a sexta criança a nascer. A semelhança que possuiam quando eram bebês se manteve por toda a vida, sendo poucas as pessoas que sabiam diferenciá-los. Como se o "efeito espelho" não fosse o bastante para a todos cativar, os gêmeos eram dados à arte performática, inventando a cada momento shows de canto, mágica, circo, mímica, entre outros, sendo, aliás, muito bons em tudo o que faziam.
Por fim nasceu Angélica, a caçula. Prematura, veio ao mundo frágil, pequena, pálida, lutando para sobreviver. Chamada carinhosamente pelos pais de “raspa do tacho”, desde sua concepção teve o amor e devoção de toda a família, sendo tais cuidados redobrados depois do nascimento difícil e do milagre de sua sobrevivência.
Angélica cresceu uma pessoa saudável. Um pouco mais baixa e pálida do que os irmãos, é verdade, e definitivamente mais magra. Resfriava-se com facilidade, mas sempre se curava com rapidez, cercada de atenções como era. Acabou se tornando a mais bela da família. As feições delicadas, os longos cabelos castanhos, a pele clara de porcelana a transformavam em uma boneca que a todos encantava.
E quanto a Ana? Não, não me esqueci dela. Ora, Leitor, neste ponto de sua história ela ainda não havia desaparecido, apesar de já se mostrar definitivamente opaca. Síndrome do filho do meio era pouco para descrever a situação de Ana.
Ana nasceu um ano depois de Abelardo e cerca de dois anos antes de Anselmo e Antenor. Seu parto veio após nove meses de gestação, sem surpresas, e, como Abelardo ainda era pequeno, ela nem mesmo trouxe consigo os prazeres de “ter novamente um bebê em casa”, como dizem muitos pais ao nascer o segundo ou terceiro filho.
Ana era simplesmente Ana. Mamava nos horários programados, chorava pouco, e, quando o fazia, era sempre acompanhada pelo potente pranto de Abelardo, abafando-a, e fazendo-a calar por fim.
A chegada dos gêmeos só fez piorar a situação. O trabalho que davam, sendo dois bebês para cuidar, alimentar, acariciar, brincar e admirar simultaneamente, dividia a atenção dos pais, avós, tios e tias.
Já com Angélica não houve sequer o ciúme fraterno, pois a própria Ana, agora com seus seis anos de idade, se viu caindo de amores pela irmã.
Na escola Ana também não chamava atenção. Aluna mediana, conversava superficialmente com colegas (nunca por iniciativa própria), participava, sem grande entusiasmo, das brincadeiras durante as aulas de educação física e, por fim, tornou-se uma pessoa tímida e apagada, mediana em tudo.
Nem alta, nem baixa; nem gorda, nem magra; cabelos castanhos médio batendo na altura dos ombros, corte reto. Em geral vestia calças jeans e camisetas neutras, com cores como branco, preto, cinza ou bege. Tornou-se operadora de telemarketing, profissão na qual ficava sentada em uma mesa, em uma sala com dezenas de outras pessoas como ela, fazendo ligações aleatórias e repetindo um texto decorado, programado em seu cérebro.
Por anos a rotina de Ana foi a mesma. Acordava às sete da manhã, tomava banho, bebia café solúvel e ia trabalhar. Na empresa não tinha amigos. Buscando a eficiência, sentava-se à sua mesa no canto da sala e punha-se logo a telefonar aos clientes em potencial.
No horário do almoço, comia em um restaurante popular, ocupando-se de ler um livro qualquer, voltando logo em seguida ao trabalho. À noite, quando chegava em casa, tomava um banho, comia um miojo e assistia televisão até dormir.
Há tempos perdera contato com a família. Acontece que Ana sempre temeu ser um estorvo para as pessoas que a cercavam, portanto não ligava para ninguém, não visitava ninguém, não queria atrapalhar ninguém.
Mas foi em uma terça-feira que Ana percebeu as consequências de seu isolamento. Ao escovar os dentes pela manhã, olhou-se no espelho e viu-se um pouco embaçada. Pensou que poderia ser do vapor do banho. Acabou de se arrumar e foi para o trabalho.
Durante uma ligação, foi buscar uma informação no computador, mas, na hora em que tentou pegar o mouse, simplesmente não havia mão. Ela sobressaltou-se, quase caindo da cadeira, e voltou a olhar para a mão. Era um engano, sua mão permanecia como sempre, na extremidade de seu membro superior direito.
Na hora do almoço a situação piorou de vez: tentou entregar o dinheiro para pagar a refeição, mas a moça do caixa recebeu o dinheiro da pessoa seguinte na fila, como se ela simplesmente não estivesse ali.
Saindo do restaurante, Ana buscou o espelho retrovisor do carro mais próximo e constatou que apesar de ainda existir, sua imagem estava vacilante, como a chama de uma vela exposta ao vento, ameaçando apagar-se.
Ana  correu para casa, fazendo questão de procurar seu próprio reflexo em cada vitrine pela qual passava. Subindo para seu apartamento, seus passos apressados na escada de madeira fizeram som o suficiente para atrair a atenção do senhorio, Seu Romão, que morava no apartamento ao lado.
Romão entrou na sala de Ana, que não havia fechado a porta. Ao ser notada por Romão, a imagem de Ana se fortaleceu por um instante, mas já era tarde demais. Romão a viu desaparecer por fim. Lágrimas silenciosas escorreram pelo rosto de Ana e então não havia mais rosto. Ana não mais existia.
Sumiu do planeta e, por consequência, sumiram seus móveis, sumiram seus registros, sumiram suas imagens nas poucas fotos e filmagens em que aparecera. Ana nunca foi.
Romão a viu sendo desmanchada da existência e sua memória também começou a apagar-se. De repente se viu questionando o que fazia no apartamento vazio. Um estalo em sua mente e foi até a própria residência, pegou um papel, pincel atômico vermelho e fita adesiva. Escreveu em letras bem destacadas “ALUGA-SE” e pregou o singelo cartaz na janela do apartamento, desejando que o futuro inquilino fosse uma pessoa calma e discreta, que não se fizesse notar no prédio familiar que administrava.

Cristiane Neves
19/12/2010 - 16:08

terça-feira, 12 de outubro de 2010

PLATONISMOS PLATONICOS III



Ou de como mesmo as melhores pessoas esquecem de olhar para baixo de vez em quando


Ô moço bonito! Passas sem me ver
Prazer para os olhos, mas tortura para alma
Andas como um rei, todas as camponesas aos pés
Fosse outro as pisaria a todas, mas assim como és
Apenas segues caminho, levando para cama
Aquela que, dentre muitas, escolher

Adônis pós-moderno, em lugar de batalhas
Talhas físico na academia, queres corpo perfeito.
És alto, tens ombros largos, peito amplo e braço forte.
As pernas grossas e mãos grandes sugerem teu porte.
Pele morena e sorriso branco completam o efeito
De um homem ímpar, eterno e sem falhas.

Observo teu gênio, pois defeito há de ter
Sempre calmo, a fala macia, e de que maneira
Tua simpatia a todos cativa! Deus sabe quanto penei
Mas depois de muita procura, o defeito eu encontrei
Não é tua personalidade, mas sim tua cegueira.
És moço bonito e passas sem me ver...


Cristiane Neves
05/10/09 – 21:30

terça-feira, 24 de agosto de 2010

A caixa




Aqui estou eu de novo, na caixa. As quatro paredes, o chão, o teto. Já perdi a conta de quantas vezes eu estive aqui, vendo tudo desse mesmo modo. Eu estou numa caixa e não tenho como sair dela. A porta fechada, a janela fechada, nada de fora contamina o ambiente, nem a luz. Isto é só uma caixa.
O brilho da tv ilumina a caixa, é a única luz. As imagens passam mudas e sem significado. E quando eu as deixo falar e tento preencher minha mente, só tenho vontade de gritar.
            Quando eu era pequena, sempre que brincava de Barbie, desejava uma máquina que encolhesse e esticasse as coisas. Esticasse para que eu pudesse usar as roupas de minhas bonecas, e encolhesse para que eu pudesse entrar na casinha delas. Agora eu vejo que estou dentro daquela casa. Estou dentro da caixa de sapatos onde se fazia o quarto. Quando se colocava a tampa, e nada mais se via daquele minúsculo quarto, eu imaginava como seria lá dentro. Eu queria tanto entrar... E agora aqui estou, deitada, olhando para a tampa da caixa, querendo que alguém abra, para que eu possa sair, ou pelo menos ver o céu escuro.
Eu sei que poderia abrir a porta, e poderia colocar os pés lá fora, e eu poderia andar na noite fria, sob estrelas lindas e distantes. Mas não, na verdade eu não poderia, porque não há nada lá fora, porque não há nada lá fora para mim, sozinha. Quem sabe algum dia?




Cristiane Neves
2004

terça-feira, 27 de julho de 2010

JUIZ DE FORA – CARATINGA




     Feriado! Tempo de descansar, passear, voltar para casa. Entro no ônibus e sento em uma poltrona torcendo para que ninguém se sente ao lado. Minha esperança se vai quando um homem ocupa a cadeira vazia. Recebo uma mensagem de meu irmão no celular e o respondo. Depois, pego o xerox de um texto do Barthes que devo ler para segunda-feira (eu disse algo sobre descansar?). Pensava estar embarcando em uma viagem interurbana. Tratava-se, na verdade, de uma viagem intrapessoal que em nenhum momento se tornou interpessoal.
     Estamos talvez assistindo a um declínio das relações sociais como as conhecemos. Isso eu posso perceber claramente aqui mesmo, no ônibus. Cada um se atém a seu lugar determinado: uma cadeira, um número (janela ou corredor?). Bom, pelo menos o homem urbano-pós-moderno se submete a isso, acostumado à individua-lidade e a pequenos espaços: apartamentos, escritórios, elevadores... Ele se acomoda em seu lugar delimitado pelos braços da poltrona.
     Uma mulher chora lá atrás. Diz entre lágrimas, contendo a voz para que não saia mais que um sussurro soluçante: “Cachorro, seu cachorro... galinha”. Mas os filhos do ambiente urbano industrial agem como se nada ouvissem, surdos às lágrimas alheias, mudos às suas próprias.
     Há ainda no ônibus pessoas livres. Vivem em lugares amplos, numa imensidão de céu e campo. Estes descansam sob a silhueta que as árvores lançam sobre o capim. Os urbanos, por sua vez, vivem à procura de um fio de luz entre as gigantescas sombras que os prédios projetam e engolem as ruas lotadas de seres vivos e máquinas.
     Mas os livres habitantes da natureza não cabem nessa caixa de metal com rodas. Por isso eles se expandem para além do espaço reservado a eles. Comunicam-se, contam seus dramas, ouvem o choro e o comentam. Não são indivíduos simplesmente. São persona-gens cada vez mais raros que sabem conjugar a sua própria individualidade, sua personalidade, sua identi-dade, com a coletividade.
É um paralelo curioso a se traçar, uma ironia mesmo, que aqueles que vivem em espaços amplos, cercados mais pela natureza que pela humanidade, sejam mais envolvidos em relações interpessoais (não só com velhos compadres, mas também com totais desconhecidos), enquanto que o homem tecnológico, sempre cercado de outros homens, em cidades com centenas de milhares, até mesmo milhões de habitantes, se afaste sempre mais (à proporção do aumento da população) dos outros de sua espécie.
O homem a meu lado brinca com o celular. Mais uma ironia da pós-modernidade com sua tecnologia. O objeto que deveria unir as pessoas no prazer da comunicação, prende esse homem ao mundo virtual.
Ah! O mundo virtual! Eis aí material para grandes discussões. É a esse espaço inexistente fisicamente que o produto racional das cidades busca agora para poder expandir suas relações pessoais e saciar sua necessidade intrínseca de se comunicar. As ruas não são mais seguras e a vida segue um ritmo alucinante que mal cabe nas 24 horas do dia. Assim a solução é buscar o não-espaço e o não-tempo. E o que nos falaria o poeta Baudelaire desse flâneur pós-moderno? Diria ele que este homem não estaria somente buscando o não-tempo e o não-espaço, mas ficando preso a um não-sabor, um não-tato, um não-cheiro, enfim, uma não-vida?
O fantasma de Chaplin em Tempos Modernos grunhe a meu lado e me traz de volta ao ônibus. Ele está revoltado, pois a serpente bateu na parede da tela e morreu. TOTAL DE PONTOS: 948. O recorde não foi batido, o jeito é recomeçar o jogo. Percebo, então, que eu também estou presa a uma não-comunicação (maior vergonha a uma profissional da área), enquanto me concentro em meu escrito, trêmulo pelo sacudir do ônibus, vacilante ao rodapé de Barthes.
E então aqui estou! Filha do progresso e feliz por isso. O critico, mas não o nego. Eu que também estou atenta aos momentos em que meu celular recupera o sinal, sei que minha natureza é a não-natureza. Muito de meus iguais ainda tentam negar a si próprios, trocar de pele e adotar o campo. A grande maioria não consegue. Os que se adaptam, deve ser por algum defeito de fabricação, erro de programação.
O homem guarda o celular e resolve tentar dormir. A mulher já se acalmou faz algum tempo e um adolescente no banco de trás ouve diskman a uma altura que de onde estou consigo reconhecer a música: Unforgettable. Lá fora as galinhas ciscam no quintal. O ônibus segue viagem.


Cris Neves
14/11/2002

terça-feira, 20 de julho de 2010

O Diálogo




O cenário é um bar cheio. Duas mesas de sinuca onde pessoas menos bebadas ganham das que já tomaram uns copinhos a mais. Amigos reunidos conversam, fofocam, namoram nas mesas espalhadas pelo ambiente. Em uma delas Ela está entediada, segurando vela para a amiga que, neste momento, parece estar usando a própria língua para contar os dentes de alguém que acabou de conhecer.

Um Cara se aproxima. Um Cara a acha atraente e a aborda. Ela está feliz com a iniciativa. Um Cara é bonito. O diálogo tem início:


Um Cara: Posso te conhecer?

Ela: “Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!”

Um Cara: Ah, mas eu tô aqui, gatinha? Qual o seu nome?

Ela: “O meu nome é Severino,
não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria.
Deram então de me chamar
Severino de Maria”

Um Cara: Severino de Maria? Que doido! Então, mas cê é daqui mesmo?

Ela: “Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?”


Um Cara coça a cabeça tentando compreender.


Um Cara: Viveu aqui e voltou? Xô ver se entendi: cê é daqui, mas não mora mais aqui... Tá visitando, então? E o que tá achando do lugar?

Ela: “Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.”

Um Cara: Cê fala muito esquis..., digo, diferente. O que você faz?

Ela: “Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.”

Um Cara: Poeta? Então tá explicado... Eu não entendo dessas coisas não. Sabe o que eu adoro? Surfar! Sempre que posso dou um pulo no litoral. Você curte pegar onda?

Ela: “a onda anda
aonde anda
a onda?
a onda ainda
ainda onda
ainda anda
aonde?
aonde?
a onda a onda”

Um Cara: Ow, o que cê fumou, garota?!? Viajou bonito agora!

Ela: “Eu durmo e vivo ao sol como um cigano,
Fumando meu cigarro vaporoso,
Nas noites de verão namoro estrelas,
Sou pobre, sou mendigo e sou ditoso...”

Um Cara: Namora estrelas? Tá doida?

Ela: "Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso"! E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.”


Momento de silêncio constrangedor.


Um Cara: Hã, meu amigo tá me chamando ali. Tipo, depois a gente se fala mais, então...


Um Cara se afasta. Ela suspira e volta a encarar o copo de cerveja sobre a mesa. Algumas mesas atrás, mais ao fundo do bar, Ele a observava. Ouviu partes da conversa. Interessou e agora aproxima-se  d’Ela.


Ele: “Eu, eu mesmo...
Eu, cheio de todos os cansaços
Quantos o mundo pode dar. –
Eu...
Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas, ao que parece,
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças...”


Os olhos d’Ela brilham.


Ela: “E eu vos direi: "Amai para entendê-las:
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”


Falavam a mesma língua e continuaram a falar até que um dia a morte (angústia de quem vive) ou a solidão (fim de quem ama) os procurou.

FIM

Cristiane Neves
15/07/10
1:28

terça-feira, 13 de julho de 2010

Fumaça




O mundo não é um sonho, é paupável, visível. Ele está à minha volta com todas as suas formas, cartazes políticos, casas antigas, vitrines iluminadas e igrejas (Deus espia pelos vitrais, anotando quem faz o sinal da cruz, pois a esses será permitido entrar em sua casa).
A minha idéia de mundo que não é real. Mas também não é sonho. É fumaça impossível de se conter, escapando por meus dedos para as camadas mais altas da atmosfera. E esse mundo nunca será tangível, para que eu possa fazer parte dele.
Enquanto isso eu ando pelas ruas da cidade numa agradável noite morna. Minha vontade era sentar na calçada, sentir o calor de suas pedras. Mas eu não posso, tal como não posso subir no banco da praça e cantar bem alto, liberando toda a energia armazenada e sem escape, sentindo as carícias da brisa fraca que carrega meu canto.
Eu não posso e ninguém pode. Todos querem, mas ninguém o faz. Calam-se ante as (in) conveniências da sociedade. Exceto os loucos. Eles se livram das amarras morais para cairem nas amarras das camisas de força.
Eu ando e sinto através de meus sapatos as pedras da calçada. Elas estão lá, são reais, sólidas e crueis. Aterrorizantemente crueis.

Cristiane Neves
22/08/04

terça-feira, 29 de junho de 2010

De "Harry e Sally" a "Harry Potter"




Eu sei que já falei aqui sobre contos de fada e comédias românticas, mas não posso deixar de abordar novamente o tema depois desta tarde.
            Por muito tempo ouvi falar de Harry e Sally – feitos um para o outro (When Harrry met Sally), filme com Meg Ryan, Billy Crystal e a eterna Princesa Leia, Carrie Fisher. Acontece que, apesar de amar filmes, gostar destes atores e de romances, por um destes infortúnios do destino, eu nunca tive a oportunidade  de assistir, pelo menos até hoje na hora do almoço.
            Ah, que irresponsabilidade! Eu devia saber que, em uma semana em que não iria sequer postar neste blog, para poder me concentrar nas provas, não era semana para ver um filme destes, que se demora a tirar da mente, principalmente no meio do dia. Trata-se de uma historia que você já sabe como começa, já sabe por onde vai, sabe como vai terminar, mas ainda assim quer ver. E os diálogos são maravilhosos, como dificilmente conseguimos reproduzir na vida real. Alias, quem dera pudéssemos trazer para o dia-a-dia estas imperfeições, estes problemas dos filmes, que são, como diz Paolo Nutini, “a run and a jump into a harmless fall”.
Não vou falar de minha projeção na personagem de Sally (tirando a parte de casamento e família), mas tenho de confessar que depois do filme não pude deixar de desejar um Harry Burns em minha vida, mesmo com aquele cabelo horrivel do Billy Crystal. E tenho de contar que odiei ter desejado isso, odiei tanto que por um momento jurei nunca mais assistir estes filmes românticos.
Porque, a bem da verdade, é muito frustrante! Aí está a diferença entre Harry e Sally e Harry Potter. Você assiste a um filme ou lê um livro do bruxo e vai pensar “Nossa, como eu adoraria estudar em Hogwarts e jogar Quadribol!”, mas você não fica frustrado porque sabe que este mundo não existe. Agora, a história de Harry e Sally é tão improvável que chega a se  aproximar da impossibilidade de se conjurar um patrono com uma varinha, no entanto existe sempre aquela esperança de que um dia pode acontecer, o que é simplesmente torturante. É uma esperança escondida em um recanto da alma, que a gente chega a esquecer que existe, e aí, vem um filme como esse e a desperta, para o desespero de nossa mente racional.
Por isso que, no que diz respeito a romances, tenho como filmes favoritos E o Vento Levou e Casablanca, pois a frustração final dos personagens se assemelha àquela em que a maioria de nós se encontra mergulhada, se aproxima mais da realidade da maior parte da população, para a qual não há finais felizes.
Por estas e outras que, para fugir do real, vou tentar me agarrar mais às histórias fantasticas, buscar JK Rowling, Anne Rice,  JRR Tolkien, ou quaisquer outros que me apresentem histórias sem esperança alguma de realidade.

Cristiane Neves
29/06/10
13:53

           

terça-feira, 15 de junho de 2010

Ilha Deserta





“No man is an island” – John Donne

Nunca fui uma pessoa adorável. Adorável no sentido de alguém de quem as pessoas gostem gratuitamente e instantaneamente. Sim, desde de bebê ouço as pessoas dizerem que pareço boneca, por ter feições delicadas e sempre aparentar juventude que não possuo. No entanto, apesar desta dádiva da natureza, não tenho o temperamento para acompanhar minha aparência. Não sou paciente com as pessoas, não sou simpática com os que me cercam, e não me esforço para me fazer desejável.


Talvez minha auto confiança seja meu problema. Conheço muito bem minhas qualidades, infelizmente as valorizo muito mais do que os que me cercam. Se para mim inteligência, educação e perspicácia são dons essenciais, sei, com muito pesar no coração, que para o resto da sociedade isto pouco importa. É o peso de ser original, diferente, fugir do ordinário. Não quero mudar quem eu sou. Gostaria de poder me unir à minha tribo, pertencer a um grupo do qual, ao menos para uma pessoa, eu fosse essencial. Mas faz tanto tempo desde a última vez em que isso aconteceu, desde que alguém fez questão de minha presença...


Se por um lado eu não mudaria, por nada no mundo,  meu jeito de ser, minha inteligência, minha perspicácia, meu introspectismo, visto que são estas as qualidades que me intrigam e cativam, por outro sei que são as características que me mantêm em minha ostra. E, ai de mim, não há maior verdade do que a seguinte afirmação aristotélica: “O homem é um animal social”

Cristiane Neves
20/12/09
00:06

terça-feira, 8 de junho de 2010

PLATONISMOS PLATÔNICOS V


Ou Três Momentos de Reflexão



- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei o barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora como música. E depois, olha! Vês, lá longe, o campo de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelo cor de ouro. E então serás maravilhoso quando me tiverdes cativado. O trigo que é dourado fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...
A raposa então calou-se e considerou muito tempo o príncipe:
- Por favor, cativa-me! disse ela.

O Pequeno Príncipe - Antoine de Saint-Exupéry

Eu não consigo compreender a facilidade com que certas pessoas se apaixonam. Tantas amigas vejo entrarem e sairem com frequência de relacionamentos, que muitas vezes me pergunto qual seria o problema comigo. São bonitas, claro, simpáticas, atraem sem dúvida pretendentes, e não é isso que me é surpreendente, mas sim a rapidez com que se vêm envolvidas com estes pretendentes. Se deixam encantar, empolgam, se mostram esperançosas, otimistas.
No que diz respeito a minha vida amorosa, talvez ela seria mais simples se eu também me envolvesse com esta facilidade. Mas assim como sou, até no que diz repeito aos homens meus gostos são complicados. E eu também sou complicada. Complexa.


Lembro-me uma noite, na época da faculdade, já quase uma década atrás, quando sentavamos bebericando vinho e ouvindo Beatles e Adriana Calcanhoto pelo violão e voz de uma amiga, artista talentosa. Naquela ocasião dividiamos as pessoas em simples e complexas. Obviamente uma divisão simplista demais, para uma humanidade tão complexa. Mas ainda assim, crendo detentoras da chave para a compreensão das pessoas, através da simples divisão em categorias, afirmavamos como os homens complexos eram exatamente aqueles que atraiam e justamente os mais complicados de se lidar.
O que qualificava alguém enquanto complexo? As pseudo-filosofias em que mergulhávamos. O pseudo-intelectualisto, intelectuóide, que se apresentava em diferentes formas. Fosse através de uma compreensão aprofundada de autores franceses como Roland Barthes (aja saco) ou Charles Baudelaire (perfeito!); ou ainda a sensibilidade musical capaz de “enxergar” como melodia o som do arranque de um carro; ou a arte de capturar a imagem ideal, calculando com perfeição a abertura do diafragma e a velocidade do obturador, determinando o tempo de exposição do filme, além do enquadramento que, dando a impressão de acaso fortúito, é fruto de profundo estudo e preparo.
Era neste meio que vivíamos imersos. Jovens sedentos por conhecimento, com sonhos e esperanças inconfessos de grandezas artísticas. Porque era isso que nos unia a todos, o amor pela arte. Futuros jornalistas, claro, mas a subjetividade era tão marcante em nossas personalidades, que muitas vezes era dificil acreditar que algum dia conseguiriamos escrever matérias isentas de pontos de vista ou digressões filosóficas.
Hoje me encontro jornalista formada. Como é inerente à minha profissão, tive contato com os mais variados tipos de pessoas, nas mais diversas situações. Encontrei pobres na tristeza de uma vida miserável e ricos na alegria de uma existência farta de prazeres. Estive com mães que perderam filhos e filhas que perderam pais. Conversei com traficantes, assassinos, policiais, vítimas, testemunhas, bandidos, herois. Vi o mundo de cabeça para baixo, as pernas grudadas ao lado do corpo, braços a sair pela barriga. Mundo deformado, que não faz sentido. Conheci também pessoas que encontravam os prazeres e alegrias nas coisas mais simples da vida. Fosse se sentir útil ao realizar um trabalho, ou o prazer em contar e recontar memória centenária, ou mesmo de poder cantar, dançar, demonstrar sua arte, ainda que público não existisse.
Tantas experiências, tantas pessoas diferentes, mostram cada vez mais a futilidade em tentar separar os homens em complexos e simples. Em verdade somos todos simples e complexos ao mesmo tempo, dependendo do momento em que nos encontramos, as situações que estamos passando. Somos todos uma mesma humanidade. Quando sofremos, sofremos. Quando estamos felizes, estamos felizes. É simples assim. Somos todos capazes de coisas maravilhosas e coisas terriveis. É complexo assim.
A verdade é que ninguém é especial, somos todos iguais. Bilhões de homens, mulheres, crianças, esperando serem cativados. Pois, como explica a Raposa de Saint-Exupéry, apenas depois de sermos cativados e de cativarmos nos tornamos diferentes para aquela pessoa cativadora ou cativa. Antes disso, somos apenas mais uma rosa como todas as outras, em um jardim infinito, sem nada que nos destaque.

E então, aqui me tenho: uma pessoa que dificilmente se deixa cativar. Raposa arisca, teme que todos os homens não passem de caçadores. Por muito tempo permaneceu selvagem, solta na natureza, e assim continua, sem Pequeno Príncipe que a cative.
Mas um dia um Príncipe há de chegar, e, como na historia, esta Raposa também se verá, aos poucos, cativada. Mas o Príncipe a deixará, pois o roteiro não muda. Para a pobre Raposa restará apenas o prazer em observar os campos de trigo e relembrar o amigo perdido. Entre lágrimas ainda afirmará que saiu no lucro, pois ao menos agora os campos de trigo têm um valor muito, muito maior em seu coração.

Cristiane Neves

terça-feira, 23 de março de 2010

Milagre




            Hoje eu fui à igreja. Não, não é domingo nem nenhum dia santo. Mesmo que fosse, essa informação ainda seria uma surpresa. Não costumo frequentar a Casa de Deus. Para mim todo solo é sagrado, não preciso de paredes e estátuas para me comunicar com forças superiores.
            Mas hoje eu recebi um chamado. Estava passando perto de uma igreja e de repente soube que devia entrar. Não usaria nenhuma porta lateral, mas sim a entrada principal. Eles me esperavam, o tapete vermelho estava estendido. Uma banda ensaiava a um canto e uma senhora rezava.
            Sentei-me na frente e lembrei-me que ao entrar em uma igreja pela primeira vez se tem o direito de fazer um pedido. Não, não é isso. Direito a fazer pedidos temos o tempo todo, mas ao entrar em uma igreja pela primeira vez, o pedido feito é atendido.
Eu nem precisei pensar. Meu pedido saltava do coração, vivo dentro de mim. Ergui meus olhos para as imagens no altar, a fim de que confirmassem que meu desejo seria realizado. No centro estava São Mateus. Ele tinha um pergaminho em uma mão e uma pena na outra. Eu o olhava fixamente, esperando o momento em que abaixaria a pena e anotaria o meu pedido no papel. Isso não aconteceu, ele apenas desviava o olhar de mim.
Busquei por Maria ao seu lado. A Santa interviria por mim. Mas ela tinha os olhos e a cabeça baixos e os braços esticados com as palmas viradas para mim em gesto de impotência. Voltei-me para as outras imagens. São José, à esquerda de São Mateus, segurava o menino Jesus e tinha os olhos tristes voltados para a criança. Ao pé do altar estavam dois anjos aos quais indaguei:
“Vocês são meus anjos da guarda? Podem me ajudar?”
Mas eles também estavam com a cabeça baixa. Tinham os olhos fechados e uma mão no peito, em grande dor, como a dizer que tampouco eles poderiam socorrer-me. Olhei para o chão, para o teto, para as paredes. Vi a banda, a velhinha que rezava e uma criança que acabara de entrar.
Comecei a perguntar o porquê da rejeição de meu pedido, se eu também não teria direito à felicidade e expus toda a minha dor, todos os meus sentimentos de fraqueza e carência e tudo o mais que não gostava dentro de mim.
Quando me voltei novamente para o altar, todas as imagens tinham os olhos direcionados para mim, a cabeça erguida e a expressão de bondosa pena. Meu canto, de tão triste, tinha comovido os santos e os anjos. Não vi São Mateus anotar nada em seu pergaminho, mas pude perceber por seu olhar que ele me compreendia. Os anjos tinham os olhos abertos, prontos para me acolher e consolar. São José e o menino me olhavam de modo reconfortante. Os braços e mãos, antes impotentes de Maria, agora queriam me abraçar.
Eu não sei se meu pedido será atendido, mas pela compreensão de todos eles e pelos milagres presenciados, eu lhes oferecerei a luz de uma vela e o perfume de um incenso.

Cristiane Neves
02/10/04

terça-feira, 2 de março de 2010

Som & Fúria




Estes últimos dias me sinto diferente. Um pessimismo que vai além do ordinário. Uma desesperança, que passa para além de meu futuro, engolindo também meu passado e presente. Uma descrença que é de toda a humanidade e de todos os tempos. Como um momento de epifania, de realização concreta da inutilizade de tudo o que há.
As folhas do calendário caem com uma velocidade assustadora. As evoluções tecnológicas e científicas se sucedem em progressão geométrica. O homem dia após dia domina novas técnicas, adquire mais sabedoria, e ainda assim a humanidade continua tão burra como sempre. Superficial, preguiçosa, preconceituosa, estúpida, iletrada, e ainda orgulhosa de ser assim.
O futuro para mim está opaco, como se visto através de uma vidraça imunda. Não é possível discernir formas concretas, apenas borrões, e eu não consigo me enxergar entre eles. No momento tenho nojo das pessoas e me sinto suja de estar em meio a elas, perpetuando esta farsa a que se chama convívio social.
Já dizia Shakespeare “Life is a tale, told by an idiot, full of sound and fury and signifying nothing”. Por quanto tempo mais permaneceremos encenando este conto?

Cristiane Neves
13/07/09 – 2:00