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sábado, 22 de janeiro de 2011

A triste história do desaparecimento de Ana




Foi em uma terça-feira que Ana desapareceu. Bom, na verdade, embora ela não soubesse, já havia um tempo que estava sumindo, apenas não tinha percebido. Talvez se tivesse prestado maior atenção nos caminhos que sua vida seguia isso não teria acontecido. Mas, ó, pobre Ana! Ela mesma não notou a si própria.
Ana foi a terceira criança nascida em uma família extensa, possuíndo três irmãs e três irmãos. Adalgisa era a mais velha, a mais esperta, a mais respeitada dos sete. Abelardo a seguiu, e, por ser um “menino-homem” sempre recebeu os privilégios que sua condição assegurava, quais sejam, a preferência do pai, do avô e dos demais membros masculinos da família.
Os gêmeos idênticos Anselmo e Antenor foram a quinta e a sexta criança a nascer. A semelhança que possuiam quando eram bebês se manteve por toda a vida, sendo poucas as pessoas que sabiam diferenciá-los. Como se o "efeito espelho" não fosse o bastante para a todos cativar, os gêmeos eram dados à arte performática, inventando a cada momento shows de canto, mágica, circo, mímica, entre outros, sendo, aliás, muito bons em tudo o que faziam.
Por fim nasceu Angélica, a caçula. Prematura, veio ao mundo frágil, pequena, pálida, lutando para sobreviver. Chamada carinhosamente pelos pais de “raspa do tacho”, desde sua concepção teve o amor e devoção de toda a família, sendo tais cuidados redobrados depois do nascimento difícil e do milagre de sua sobrevivência.
Angélica cresceu uma pessoa saudável. Um pouco mais baixa e pálida do que os irmãos, é verdade, e definitivamente mais magra. Resfriava-se com facilidade, mas sempre se curava com rapidez, cercada de atenções como era. Acabou se tornando a mais bela da família. As feições delicadas, os longos cabelos castanhos, a pele clara de porcelana a transformavam em uma boneca que a todos encantava.
E quanto a Ana? Não, não me esqueci dela. Ora, Leitor, neste ponto de sua história ela ainda não havia desaparecido, apesar de já se mostrar definitivamente opaca. Síndrome do filho do meio era pouco para descrever a situação de Ana.
Ana nasceu um ano depois de Abelardo e cerca de dois anos antes de Anselmo e Antenor. Seu parto veio após nove meses de gestação, sem surpresas, e, como Abelardo ainda era pequeno, ela nem mesmo trouxe consigo os prazeres de “ter novamente um bebê em casa”, como dizem muitos pais ao nascer o segundo ou terceiro filho.
Ana era simplesmente Ana. Mamava nos horários programados, chorava pouco, e, quando o fazia, era sempre acompanhada pelo potente pranto de Abelardo, abafando-a, e fazendo-a calar por fim.
A chegada dos gêmeos só fez piorar a situação. O trabalho que davam, sendo dois bebês para cuidar, alimentar, acariciar, brincar e admirar simultaneamente, dividia a atenção dos pais, avós, tios e tias.
Já com Angélica não houve sequer o ciúme fraterno, pois a própria Ana, agora com seus seis anos de idade, se viu caindo de amores pela irmã.
Na escola Ana também não chamava atenção. Aluna mediana, conversava superficialmente com colegas (nunca por iniciativa própria), participava, sem grande entusiasmo, das brincadeiras durante as aulas de educação física e, por fim, tornou-se uma pessoa tímida e apagada, mediana em tudo.
Nem alta, nem baixa; nem gorda, nem magra; cabelos castanhos médio batendo na altura dos ombros, corte reto. Em geral vestia calças jeans e camisetas neutras, com cores como branco, preto, cinza ou bege. Tornou-se operadora de telemarketing, profissão na qual ficava sentada em uma mesa, em uma sala com dezenas de outras pessoas como ela, fazendo ligações aleatórias e repetindo um texto decorado, programado em seu cérebro.
Por anos a rotina de Ana foi a mesma. Acordava às sete da manhã, tomava banho, bebia café solúvel e ia trabalhar. Na empresa não tinha amigos. Buscando a eficiência, sentava-se à sua mesa no canto da sala e punha-se logo a telefonar aos clientes em potencial.
No horário do almoço, comia em um restaurante popular, ocupando-se de ler um livro qualquer, voltando logo em seguida ao trabalho. À noite, quando chegava em casa, tomava um banho, comia um miojo e assistia televisão até dormir.
Há tempos perdera contato com a família. Acontece que Ana sempre temeu ser um estorvo para as pessoas que a cercavam, portanto não ligava para ninguém, não visitava ninguém, não queria atrapalhar ninguém.
Mas foi em uma terça-feira que Ana percebeu as consequências de seu isolamento. Ao escovar os dentes pela manhã, olhou-se no espelho e viu-se um pouco embaçada. Pensou que poderia ser do vapor do banho. Acabou de se arrumar e foi para o trabalho.
Durante uma ligação, foi buscar uma informação no computador, mas, na hora em que tentou pegar o mouse, simplesmente não havia mão. Ela sobressaltou-se, quase caindo da cadeira, e voltou a olhar para a mão. Era um engano, sua mão permanecia como sempre, na extremidade de seu membro superior direito.
Na hora do almoço a situação piorou de vez: tentou entregar o dinheiro para pagar a refeição, mas a moça do caixa recebeu o dinheiro da pessoa seguinte na fila, como se ela simplesmente não estivesse ali.
Saindo do restaurante, Ana buscou o espelho retrovisor do carro mais próximo e constatou que apesar de ainda existir, sua imagem estava vacilante, como a chama de uma vela exposta ao vento, ameaçando apagar-se.
Ana  correu para casa, fazendo questão de procurar seu próprio reflexo em cada vitrine pela qual passava. Subindo para seu apartamento, seus passos apressados na escada de madeira fizeram som o suficiente para atrair a atenção do senhorio, Seu Romão, que morava no apartamento ao lado.
Romão entrou na sala de Ana, que não havia fechado a porta. Ao ser notada por Romão, a imagem de Ana se fortaleceu por um instante, mas já era tarde demais. Romão a viu desaparecer por fim. Lágrimas silenciosas escorreram pelo rosto de Ana e então não havia mais rosto. Ana não mais existia.
Sumiu do planeta e, por consequência, sumiram seus móveis, sumiram seus registros, sumiram suas imagens nas poucas fotos e filmagens em que aparecera. Ana nunca foi.
Romão a viu sendo desmanchada da existência e sua memória também começou a apagar-se. De repente se viu questionando o que fazia no apartamento vazio. Um estalo em sua mente e foi até a própria residência, pegou um papel, pincel atômico vermelho e fita adesiva. Escreveu em letras bem destacadas “ALUGA-SE” e pregou o singelo cartaz na janela do apartamento, desejando que o futuro inquilino fosse uma pessoa calma e discreta, que não se fizesse notar no prédio familiar que administrava.

Cristiane Neves
19/12/2010 - 16:08

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Feliz Aniversário




Sou conhecida como Vovó Zenaia e hoje é meu aniversário. Estou completando 90 anos de idade. Esta noite meus familiares comemorarão a data com uma festa reunindo até parentes distantes. Acho que estão cientes que não devo durar muitos anos mais.
É difícil chegar aos 90 anos. Acho que de certa forma sou privilegiada. Tenho minhas faculdades mentais em boas condições, apesar da idade. Busco exercitar sempre minha mente de forma a mantê-la alerta. Mulher à frente de meu tempo, estudei muito, fui professora, sempre gostei de ler e continuo com meus hábitos. Ainda assim, muitas vezes sinto dificuldade ao tentar lembrar-me de fatos acontecidos durante o dia, ou ainda de comunicar-me. Temo que a situação esteja piorando a cada dia.
Noventa anos também é difícil para o corpo. Canso com facilidade, tenho dores nas juntas com frequência, uso aparelho auditivo e já tive de submeter-me a cirurgia de catarata. Minhas mãos são trêmulas, os ossos frágeis e a pele tão fina que se corta com facilidade.
Doi muito a reação das outras pessoas quando me vêem. Parece que a sociedade, ao tentar valorizar a terceira idade, nos reduziu à situação de bebês. Perco a conta de quantas vezes por dia escuto mulheres emotivas dizerem na rua “Nossa, que gracinha de velhinha!”, ou ainda, ao conversarem comigo, usarem tons infantis, como ao tentar explicar algo complicado a uma criança.
E quanto a esta valorização da terceira idade, não tenho certeza de que existe de verdade. A sensação que tenho é de que as pessoas jovens apenas nos toleram por ser este o comportamento considerado correto nos dias de hoje. Não há uma inclusão real no mundo. A cada aniversário ficamos mais e mais à margem da sociedade e mesmo das decisões que influenciam os rumos da humanidade. Faz sentido. Em breve não estaremos mais aqui, então por que teriamos vez, não é mesmo?
Mas acredito que minha vaidade é o que mais sofre com a idade. Olho-me no espelho e não me reconheço em nada do que vejo. Ao longo dos anos acompanhei o surgimento de cada ruga, cada cabelo branco, mas hoje choca ver-me assim: encurvada, a cabeça coberta por finos e ralos cabelos brancos, os olhos desbotados...
Eu era bela, cobiçada pelos homens. Tive muitos admiradores, casei-me duas vezes. Meus cabelos eram impecáveis, a pele uma seda, as roupas sempre na última moda. E agora não há sequer quem se lembre daquela época. Para todos os que me cercam eu sou e sempre serei Vovó Zenaia.
Ninguém me conhece. Não sabem dos sonhos que tive e nunca pude realizar, não sabem das aventuras que vivi, dos segredos que guardei, das dores que sofri, dos amores que perdi, das amizades que sumiram no tempo.
Não sou mais mulher, sou velha. A senhorinha idosa que mora no fim da rua. Ficariam todos horrorizados se soubesse que eu, ao assistir à novela, também acho bonito aquele protagonista moreno, jovem e forte, e muitas vezes surpreendo-me, imaginando como seria um beijo daquela boca.
Beijos... Há tantos anos não sei mais o que é beijar, ser tocada e amada por um homem. Com a idade nos tornamos espectadores da vida, não mais participamos dela. Dia após dia se torna como mais uma página de um epílogo entediante e interminável.
Sou a última entre os de minha época. Meus amigos de infância, colegas de escola, trabalho, ou já morreram ou o tempo os levou para longe. De muitos nem lembro mais o nome. Vejo-me às vezes confundindo, juntando em uma pessoas características de dois velhos amigos de tempos diferentes. É a memória que desbota.
Agora estou aqui, sentada no banco da praça tomando um pouco do sol das 16 horas. Sei que dentro de pouco tempo minha neta virá me procurar, para saber o que estou “aprontando”, e mandar-me para o banho, pois os convidados logo começarão a chegar. É a regressão à infância que eu devo aturar, enquanto espero ansiosamente pelo momento de finalmente encerrar o livro.

Cristiane Neves
01-12-09
11:02

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

La danza




         Ok, então eu estou em uma festa de arromba em que a “música” tocando quase estoura meus ouvidos. “Eguinha pocotó”, nada mais idiota do que isso poderia fazer sucesso. Não é só a letra, é o ritmo. Quando a música começa parece que o lugar se transforma em uma espécie de inferno barulhento, sem harmonia, quente e apertado por todas as pessoas que começam a pular ao mesmo tempo. E há tantas músicas como essa... Axé, funk, tanta coisa ruim que eu prefiro me sentar em uma mesa. E claro que como sempre acontece alguém se aproxima de mim e me pergunta se não vou dançar. Como sempre respondo que não, não gosto de dançar. Ao fim da festa falam que eu sou quietinha e/ou não aproveitei a festa direito.
         É verdade que talvez eu não tenha gostado muito da festa, mas aproveitei mais do que se tivesse dançado. Mas o que mais me incomoda não é o fato do que dizem, mas o que eu mesma digo: “não gosto de dançar”! Besteira! Eu amo a música e adoro deixá-la me dominar e controlar meus movimentos. Mas estou falando de música e dança de verdade.
         Há pouco tempo li Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, onde eram descritas várias vezes as festas da sociedade inglesa de sua época. Não que eu gostaria de freqüentar aquela sociedade preconceituosa e cheia de regras. Já é difícil agüentar a intolerância e idiotice da sociedade atual, mas quanto às festas daquela época... Verdadeiros cavalheiros e damas! Também há pouco tempo assisti ao filme Memórias Póstumas e talvez por isso esteja um tanto influenciada por épocas passadas. Mas sinceramente, aquelas músicas eram maravilhosas, harmoniosas, impecáveis. O rodopiar, o cavalheiro conduzindo a dama por todo o amplo salão, eis uma dança que causa uma sensação esplêndida para mim, aliás, creio que causaria prazer à maioria das pessoas.  
         Uma dança como essa seria a união perfeita entre dois seres que se amam, o dançarino e a música. Escrevi uma crônica onde eu comparava a música com o amor. A dança seria o sexo, uma união de certo modo carnal entre o ser físico e a abstração da música. Portanto afirmo em alto e bom som “EU AMO DANÇAR” (ainda que não o saiba), negá-lo seria como afirmar não gostar de sexo.
Melhor que simplesmente dançar é dançar com a pessoa amada. Juntar as duas maiores paixões em uma, um verdadeiro ménage a trois.
         Em minha opinião a melhor das danças, a mais bela de se assistir e provavelmente a mais gostosa de se dançar (um dia hei de aprender) é o tango. Não há dança mais sensual e significativa.
         Não tenho esperança de uma mudança repentina da preferência de ritmos de nossa sociedade, mas pretendo agarrar-me à idéia de que ainda encontrarei alguém que compartilhe o suficiente de minhas idéias para aceitar, um dia, guiar-me por um enorme salão ao som de um tango argentino.


Cris Neves

terça-feira, 26 de outubro de 2010

A Vela e a Tempestade




Eu observo a vela sobre a mesa. Dois terços da cera jaz derretida, espalhada pela madeira irregular. As linhas que formam lembram as esculturas criadas pelo efeito milenar de água infiltrando na rocha.
A luz que a chama produz não se projeta muito longe, de forma que a maior parte do amplo cômodo permanece no mais absoluto negrume. Mas olhando a vela assim, de perto, vejo a beleza do azul, amarelo, laranja e vermelho dançando ao ritmo do vento que penetra pela fresta da janela.
Lá fora a tempestade continua. Um relâmpago risca o céu e por alguns segundos tudo se ilumina. Quase simultaneamente o estrondo retumba. O raio caiu perto. A chuva parece longe de terminar.
Ouço as árvores sacudirem furiosas. A água cai com força sobre as telhas. Escuto gotas intrometidas batendo no chão em algum no cômodo, mas não consigo localizar.
Faz frio. Chego as mãos perto da vela. O calor não é suficiente para aquecer-me por completo, mas bastari deixar minha pele encostar a chama por alguns instantes para queimar-me.
A força do vento abre uma das janelas de madeira. A vela se apaga. Chove dentro de meu abrigo. Devagar e com cuidado, consigo chegar até a janela e fechá-la. A escuridão agora é completa. Tateando e com ajuda de alguns relâmpagos, consigo voltar para a mesa.
Acendo novamente a vela, mas ela permanece iluminada apenas por alguns minutos, reduzindo-se a uma mera poça de cera branca-amarelada, semiamolecida, esparramada na tosca mesa de tábuas.
A tempestade continua intensa. Eu permaneço sentada. Fecho os olhos e vejo o azul, amarelo, laranja e vermelho dançando. De repente, me tenho transformada em uma chama trêmulante brilhando no escuro. Foram apenas alguns segundos, mas abro os olhos e horas se passaram. A tempestade se reduziu a uma garoa suave. O dia começa a amanhecer, ainda cinzento, mas prometendo mudanças.
“Acabou a emoção...” – eu penso, enquanto vou para o quarto dormir.

Cristiane Neves
24/10/10
02:35

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

PLATONISMOS PLATÔNICOS VII



Reencontros

“O que dizer a alguém com quem não temos contato há 15 anos? E quando esta pessoa, em determinado momento no tempo, nos significou mais do que é possível exprimir, comprometendo nossa consciência, integridade e moral?”


Amizade. Coleguismo. Amor. O que é capaz de sobreviver ao tempo e à distância?
Hoje nós temos tecnologias que facilitam o contato, superando o espaço, vencendo o tempo. Mas as ocupações do dia a dia acabam por tornar as relações superficiais. Um dia você acorda e vê que o único contato com aquele melhor amigo da 5ª série se resume a postar uma mensagem de feliz aniversário no orkut. Mesmo assim, só porque o próprio site de relacionamentos te lembra daquela data.
Fato é que o esquecimento, o estranhamento mesmo, são inevitáveis quando há distância entre as pessoas por prolongado período de tempo. São raras as amizades capazes de resisitir a este teste.
Normalmente os acontecimentos inevitáveis da vida nos levam por caminhos os mais diversos. Ao longo do percurso, encontramos pessoas diferentes e passamos por elas, deixando-as seguir seus rumos enquanto continuamos em nossa própria trilha.
Às vezes há o reencontro. Após alguns segundos de euforia, torna-se um anticlimático momento de constrangimento. Assim, grandes amigos de tempos atrás fingem colocar em dia as notícias sobre suas vidas. Relatam em que trabalham, com quem casaram e quantos filhos tiveram, deixando de lado detalhes como o baixo salário, a crise no casamento e as revoltas adolescentes do primogênito.
Em poucos minutos, exaurem este tópico, pondo-se, então, a relembrar o passado. Momentos divertidos, passagens difíceis, memórias que ambos carregarão para sempre. Logo, mais este assunto se encerra. Não há o que falar. Não há nada em comum entre os dois. Não fazem parte do presente um do outro.
E quando nos deparamos com um grande amor de outrora? Creio que o mais das vezes a reação é riso, alívio ou simplesmente indiferença. Nestes casos, ficar tentando identificar o que nos teria feito apaixonar por tal pessoa é uma tarefa verdadeiramente árdua. Na realidade, se trata de empreendimento inútil, pois aquelas duas pessoas que se vêem frente a frente não são as mesmas de anos atrás.
É preciso agradecer a Deus por estas mudanças.
Apesar do alívio de perceber tal amor superado, a ferida há muito cicatrizada, não deixa de ficar ali uma decepção, uma nostalgia, a sensação de que algo se perdeu.
E se ao encontrar tal amor perdido, a sensação for de despertar algo há muito adormecido, algo que se acreditava morto? Descobrir brasa aonde acreditava haver apenas cinza... Isto é possível?
Ao ler o grande poeta Olavo Bilac acredito que sim. Sua malfadada história de amor é conhecida. Noivo da poetisa Amélia de Oliveira, teve o casamento impedido pelo irmão de sua amada, permanecendo ambos solteiros por toda a vida.
Dizem que se encontraram depois de 20 anos separados. Do episódio resultou o soneto Milagre, de Bilac:

Depois de tantos anos, frente a frente,
Um encontro... O fantasma do meu sonho!
E, de cabelos brancos, mudamente,
Quedamos frios, num olhar tristonho.

Velhos!... Mas, quando, ansioso, de repente,
Nas suas mãos as minhas palmas ponho,
Ressurge a nossa primavera ardente,
Na terra em bênçãos, sob um sol risonho

Felizes, num prestígio, estremecemos;
Deliramos, na luz que nos invade
Dos redivivos êxtases supremos;

E fulgimos, volvendo à mocidade,
Aureolados dos beijos que tivemos,
No divino milagre da saudade.

Teria sido por esta época que Amélia escreveu os seguintes versos:

Não te peço a ventura desejada,
Nem os sonhos que outrora tu me deste,
Nem a santa alegria que puseste
Nessa doce esperança, já passada.

O futuro de amor que prometeste
Não te peço! Minha alma angustiada
Já te não pede, do impossível, nada,
Já te não lembra aquilo que esqueceste!

Nesta mágoa sorvida, ocultamente,
Nesta saudade atroz que me deixaste,
Neste pranto, que choro ainda por ti,

Nada te peço! Nada! Tão-somente
Peço-te agora a paz que me roubaste,
Peço-te agora a vida que perdi!

Completando a triste história, contam ainda que, após a morte de Bilac, Amélia teceu-lhe um travesseiro recheando-o com mechas de seu cabelo, descansando nele a cabeça de seu grande amor.
Será possível então, que a distância e o tempo podem ser superados por sentimentos nobres? Ou será que tais sentimentos somente se mantiveram nobres devido aos obstáculos, mantendo a idealização, a perfeição platônica?
Acho que ainda preciso percorrer um longo caminho até poder responder a estas perguntas. Por enquanto, continuo dando graças a Deus pelas mudanças que nos salvam da estagnação, mesmo que o preço, às vezes, possa parecer alto.

Cristiane Neves
29/09/10
20:04

PS: A foto deste post é do reencontro do leão Christian com os homens que o criaram, depois de um ano em seu habitat natural. Quem já viu o video tem de acreditar que existem laços que permanecem.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Atemporal




Você já sentiu algum dia que não pertence a seu tempo? Sinto isso a todo o momento. O problema é que não sei em que época eu deveria ter nascido. Certos momentos tenho claro em minha mente que não poderia viver em um mundo de mentalidade tão fechada quanto o de antigamente, ou até mesmo o atual. São nestes momentos que penso pertencer ao futuro.
Vejo que as pessoas de hoje em dia ainda tentam regular a vida dos outros quando em nada lhes diz respeito; ainda cultivam seus preconceitos e têm grandes dificuldades em quebrar paradigmas; ainda têm preguiça de pensar por si mesmas, se deixando levar pelo pão e circo de cada dia (tantas vezes carentes de pão, mas o circo não falta); ainda, ainda, ainda...
Em outros momentos me vejo buscando o passado, como por exemplo as décadas da primeira metade do século XX. Tempos de vida mais simples, de arte frutífera, moda tão atraente, grandes descobertas das ciências e tecnologias que davam esperança de um mundo melhor. Nos anos 60 o futuro retratado nas obras de ficção, como no desenho animado dos Jetsons ou no seriado Jornada nas Estrelas, nos mostravam a esperança daquela época em um futuro espetacular. Hoje, nossos filmes em geral nos pintam futuros pós-apocalípticos, indicando o declínio da raça humana, ao exemplo de Matrix.
Pensando sobre passado e futuro, sabendo bem a história que ficou  para trás e a para a qual caminhamos, sei que em ambos os tempos não me encaixo. O futuro não me parece otimista, pois sei que será formado pelas pessoas que hoje crescem expostas a uma educação de baixa qualidade e com poucos incentivos culturais. O passado, como já disse, traz um modo de pensar, de viver com o qual não concordo.
Volto-me então ao presente. Foi o tempo ao qual disse não sentir me encaixar, e disso estou certa. Ando entre as pessoas muitas vezes como um ser de outro planeta, em outras como uma pessoa invisível. Ou não me faço notar, por não ter com que contribuir, ou minha contribuição me destaca de tal forma que vejo no olhar das pessoas aquela diferenciação: não sou um igual.
Sou diferente, não há duvida. Também não sei se gostaria de ser de outra forma. Tenho certeza, no entanto, de que não pertenço ao presente. O passado não me aceitaria. O futuro não me quer. Sou alguém sem tempo e sem lugar.

Cristiane Neves
23/10/09
21:59

terça-feira, 24 de agosto de 2010

A caixa




Aqui estou eu de novo, na caixa. As quatro paredes, o chão, o teto. Já perdi a conta de quantas vezes eu estive aqui, vendo tudo desse mesmo modo. Eu estou numa caixa e não tenho como sair dela. A porta fechada, a janela fechada, nada de fora contamina o ambiente, nem a luz. Isto é só uma caixa.
O brilho da tv ilumina a caixa, é a única luz. As imagens passam mudas e sem significado. E quando eu as deixo falar e tento preencher minha mente, só tenho vontade de gritar.
            Quando eu era pequena, sempre que brincava de Barbie, desejava uma máquina que encolhesse e esticasse as coisas. Esticasse para que eu pudesse usar as roupas de minhas bonecas, e encolhesse para que eu pudesse entrar na casinha delas. Agora eu vejo que estou dentro daquela casa. Estou dentro da caixa de sapatos onde se fazia o quarto. Quando se colocava a tampa, e nada mais se via daquele minúsculo quarto, eu imaginava como seria lá dentro. Eu queria tanto entrar... E agora aqui estou, deitada, olhando para a tampa da caixa, querendo que alguém abra, para que eu possa sair, ou pelo menos ver o céu escuro.
Eu sei que poderia abrir a porta, e poderia colocar os pés lá fora, e eu poderia andar na noite fria, sob estrelas lindas e distantes. Mas não, na verdade eu não poderia, porque não há nada lá fora, porque não há nada lá fora para mim, sozinha. Quem sabe algum dia?




Cristiane Neves
2004

terça-feira, 17 de agosto de 2010

A verdadeira Catarse


ou Uma Breve Resenha Sobre O Príncipe das Marés



        Há pouco tempo eu escrevi sobre como comédias românticas, através de seu mínimo de plausibilidade, se tornam ainda mais irreais do que histórias de magia e ficção. Tal fato deixa um gosto residual desagradável, maculando a catártica experiência de mergulhar em uma leve distração por uma hora e meia.
        Por outro lado, outros filmes nos apresentam a realidade como ela é, de forma que nos é possível identificar e relacionar a situações, acontecimentos e pessoas, tornando a experiência cinematográfica mais completa, uma vez que podemos compreender melhor a motivação dos personagens.
        Ademais, tais filmes ainda nos ensinam a realidade, podemos compreender melhor o mundo em que estamos inseridos quando o vemos com olhos de espectadores e não atores.
        É claro que toda esta reflexão tem uma origem: O Príncipe das Marés. Filme de 1991, estrelado por Nick Nolte e Barbra Streissand, e dirigido pela própria estrela judia, nos apresenta um mundo grotesco em certos momentos e muito belo em outros, mas sempre mostrado de forma poética e sem perder a realidade e plausibilidade.
        Sendo absolutamente contra estragar filmes para quem ainda não os viu, mesmo diante das quase duas décadas do lançamento, não pretendo falar aqui dos mistérios do filme, centrados no que teria acontecido na infância dos irmãos Wingo. Mas isso não me impedirá de comentar o filmes. Aliás, faço um alerta: se por um lado não divulgarei o segredo da infância de Savana, por outro alguns pontos chaves da história podem ser revelados. Portanto, se ainda não tiver visto o filme, prossiga com cautela, ou simplesmente não prossiga.
        Quando digo que trata da realidade, não é que todos nós somos traumatizados e danificados à extensão de personagens como Tom ou Savannah. Mas é verdade que todos temos cicatrizes psíquicas que mancham o passado e determinam o presente, visto terem afetado a formação de nossa personalidade.
Alias, recorrente por todo o enredo é a desconstrução da perfeição. A história até começa nos mostrando crianças felizes, filhas de pais amorosos, mas ao passar do filme começam a ser dissecadas as camadas que escondem os segredos profundos daquela família.
        Desta forma, a derrocada das primeiras aparências acontecem ao longo de toda a película. Temos, por exemplo, a seriedade profissional da Dra. Lowenstein, que sempre aparece com cabelos impecáveis e roupas sóbrias quando se mostra profissional, mas com cabelos ondulados e roupas folgadas, quando em momentos de descontração, em que se permite ser ela mesma, e não a psiquiatra.
        O tédio e a angústia adolescente de Bernard, o sorriso simpático do violinista Woodruff ao passar por Tom na sala de espera da Dra. Lowenstein, são as primeiras cenas de apresentação de personagens, que depois se mostram ser pessoas diferentes daquelas que aparentavam.
        E não é bem isso o que temos em nosso dia a dia? Impressões erradas das pessoas, que procuram sempre se esconder atras de máscaras, seja se fazendo desagradáveis para afastarem as outras pessoas, seja personificando a simpatia, para as atrair, escondendo a verdade pretenciosa que existe em si.
        Falando ainda em realidades que o filme traz a tona, o que não dizer dos relacionamentos do personagem principal Tom. Com uma infância difícil marcada por uma mãe forte, decidida e ambiciosa, e um pai abusivo e ausente, além de traumas severos, por mais que tente se afastar de sua família, Tom não parece ser capaz de fazê-lo. Aliás, como ele aprende ao final, a aproximação é até mesmo necessária:

Tom Wingo: Em Nova York eu aprendi que eu precisava amar minha mãe e meu pai em todas as suas falhas, sua humanidade ultrajante. E em famílias, não existem crimes imperdoáveis.

        Com os problemas conjugais é o mesmo. Diante de uma situação que parece insuportável, sua atitude é a inércia. Em uma referencia ao título, ele é como uma alga na areia da praia, esperando que a maré suba para levá-lo de volta consigo.
        Enquanto isso, na praia, ou melhor, em Nova York, Dra. Lowenstein passa por problemas conjugais ela própria, mas é capaz de se libertar da situação, com um empurrão de Tom, é claro. Pois se ele permanece estático em relação à própria situação no sul (remetendo, inclusíve, à sua mobilidade diante do trágico acontecimento do passado de sua família), o mesmo não pode ser dito de sua atitude em relação à vida das pessoas com quem teve contato no norte.
        E aqui, mais uma vez, o filme se apresenta como um retrato da realidade. Se em uma comédia romântica o certo é que Tom ficaria com a Dra. Lowenstein no final, sabemos que na vida real os romances nem sempre funcionam, muito pelo contrário.
        Enquanto Tom ajudou a Dra a se libertar da vida triste que levava, ela, por sua vez, como o próprio Tom diz, o tornou apto a retornar à sua própria família. E ela, tendo por profissão analisar as pessoas, sabia muito bem o que a aguardava.

Susan Lowenstein: O que vai acontecer quando Sally o quiser de volta? Ela vai te querer, você sabe.
Tom Wingo: Por que tem tanta certeza?
Susan Lowenstein: Eu provei a mercadoria.

        A propósito, no que diz respeito à minha resenha anterior, sobre Harry e Sally, lembro de ter destacado que os diálogos eram muito bons, do tipo que dificilmente conseguimos reproduzir na vida real. Já em O Principe das Marés, digo que os diálogos também são maravilhosos, mas me parecem muito mais plausíveis de serem ditos em nosso dia a dia. Estas linhas por exemplo:

Susan Lowenstein: Admita. Você a ama mais.
Tom Wingo: Não. Não mais, Lowenstein. Apenas há mais tempo.

        Nós nunca veríamos estas palavras em nossas comédias românticas produzidas em massa, no entanto são falas como estas que representam com perfeição a imperfeição do mundo. Filmes deste tipo não deixam gosto residual ruim, não trazem aquela depressão após a euforia. O gosto ruim, a depressão, já existiam. Vê-los na tela apenas ajuda a expulsá-los de nós mesmos, possibilitando a realização da verdadeira catarse.

Cristiane Neves
17/08/10
02:03

terça-feira, 27 de julho de 2010

JUIZ DE FORA – CARATINGA




     Feriado! Tempo de descansar, passear, voltar para casa. Entro no ônibus e sento em uma poltrona torcendo para que ninguém se sente ao lado. Minha esperança se vai quando um homem ocupa a cadeira vazia. Recebo uma mensagem de meu irmão no celular e o respondo. Depois, pego o xerox de um texto do Barthes que devo ler para segunda-feira (eu disse algo sobre descansar?). Pensava estar embarcando em uma viagem interurbana. Tratava-se, na verdade, de uma viagem intrapessoal que em nenhum momento se tornou interpessoal.
     Estamos talvez assistindo a um declínio das relações sociais como as conhecemos. Isso eu posso perceber claramente aqui mesmo, no ônibus. Cada um se atém a seu lugar determinado: uma cadeira, um número (janela ou corredor?). Bom, pelo menos o homem urbano-pós-moderno se submete a isso, acostumado à individua-lidade e a pequenos espaços: apartamentos, escritórios, elevadores... Ele se acomoda em seu lugar delimitado pelos braços da poltrona.
     Uma mulher chora lá atrás. Diz entre lágrimas, contendo a voz para que não saia mais que um sussurro soluçante: “Cachorro, seu cachorro... galinha”. Mas os filhos do ambiente urbano industrial agem como se nada ouvissem, surdos às lágrimas alheias, mudos às suas próprias.
     Há ainda no ônibus pessoas livres. Vivem em lugares amplos, numa imensidão de céu e campo. Estes descansam sob a silhueta que as árvores lançam sobre o capim. Os urbanos, por sua vez, vivem à procura de um fio de luz entre as gigantescas sombras que os prédios projetam e engolem as ruas lotadas de seres vivos e máquinas.
     Mas os livres habitantes da natureza não cabem nessa caixa de metal com rodas. Por isso eles se expandem para além do espaço reservado a eles. Comunicam-se, contam seus dramas, ouvem o choro e o comentam. Não são indivíduos simplesmente. São persona-gens cada vez mais raros que sabem conjugar a sua própria individualidade, sua personalidade, sua identi-dade, com a coletividade.
É um paralelo curioso a se traçar, uma ironia mesmo, que aqueles que vivem em espaços amplos, cercados mais pela natureza que pela humanidade, sejam mais envolvidos em relações interpessoais (não só com velhos compadres, mas também com totais desconhecidos), enquanto que o homem tecnológico, sempre cercado de outros homens, em cidades com centenas de milhares, até mesmo milhões de habitantes, se afaste sempre mais (à proporção do aumento da população) dos outros de sua espécie.
O homem a meu lado brinca com o celular. Mais uma ironia da pós-modernidade com sua tecnologia. O objeto que deveria unir as pessoas no prazer da comunicação, prende esse homem ao mundo virtual.
Ah! O mundo virtual! Eis aí material para grandes discussões. É a esse espaço inexistente fisicamente que o produto racional das cidades busca agora para poder expandir suas relações pessoais e saciar sua necessidade intrínseca de se comunicar. As ruas não são mais seguras e a vida segue um ritmo alucinante que mal cabe nas 24 horas do dia. Assim a solução é buscar o não-espaço e o não-tempo. E o que nos falaria o poeta Baudelaire desse flâneur pós-moderno? Diria ele que este homem não estaria somente buscando o não-tempo e o não-espaço, mas ficando preso a um não-sabor, um não-tato, um não-cheiro, enfim, uma não-vida?
O fantasma de Chaplin em Tempos Modernos grunhe a meu lado e me traz de volta ao ônibus. Ele está revoltado, pois a serpente bateu na parede da tela e morreu. TOTAL DE PONTOS: 948. O recorde não foi batido, o jeito é recomeçar o jogo. Percebo, então, que eu também estou presa a uma não-comunicação (maior vergonha a uma profissional da área), enquanto me concentro em meu escrito, trêmulo pelo sacudir do ônibus, vacilante ao rodapé de Barthes.
E então aqui estou! Filha do progresso e feliz por isso. O critico, mas não o nego. Eu que também estou atenta aos momentos em que meu celular recupera o sinal, sei que minha natureza é a não-natureza. Muito de meus iguais ainda tentam negar a si próprios, trocar de pele e adotar o campo. A grande maioria não consegue. Os que se adaptam, deve ser por algum defeito de fabricação, erro de programação.
O homem guarda o celular e resolve tentar dormir. A mulher já se acalmou faz algum tempo e um adolescente no banco de trás ouve diskman a uma altura que de onde estou consigo reconhecer a música: Unforgettable. Lá fora as galinhas ciscam no quintal. O ônibus segue viagem.


Cris Neves
14/11/2002