terça-feira, 29 de junho de 2010

De "Harry e Sally" a "Harry Potter"




Eu sei que já falei aqui sobre contos de fada e comédias românticas, mas não posso deixar de abordar novamente o tema depois desta tarde.
            Por muito tempo ouvi falar de Harry e Sally – feitos um para o outro (When Harrry met Sally), filme com Meg Ryan, Billy Crystal e a eterna Princesa Leia, Carrie Fisher. Acontece que, apesar de amar filmes, gostar destes atores e de romances, por um destes infortúnios do destino, eu nunca tive a oportunidade  de assistir, pelo menos até hoje na hora do almoço.
            Ah, que irresponsabilidade! Eu devia saber que, em uma semana em que não iria sequer postar neste blog, para poder me concentrar nas provas, não era semana para ver um filme destes, que se demora a tirar da mente, principalmente no meio do dia. Trata-se de uma historia que você já sabe como começa, já sabe por onde vai, sabe como vai terminar, mas ainda assim quer ver. E os diálogos são maravilhosos, como dificilmente conseguimos reproduzir na vida real. Alias, quem dera pudéssemos trazer para o dia-a-dia estas imperfeições, estes problemas dos filmes, que são, como diz Paolo Nutini, “a run and a jump into a harmless fall”.
Não vou falar de minha projeção na personagem de Sally (tirando a parte de casamento e família), mas tenho de confessar que depois do filme não pude deixar de desejar um Harry Burns em minha vida, mesmo com aquele cabelo horrivel do Billy Crystal. E tenho de contar que odiei ter desejado isso, odiei tanto que por um momento jurei nunca mais assistir estes filmes românticos.
Porque, a bem da verdade, é muito frustrante! Aí está a diferença entre Harry e Sally e Harry Potter. Você assiste a um filme ou lê um livro do bruxo e vai pensar “Nossa, como eu adoraria estudar em Hogwarts e jogar Quadribol!”, mas você não fica frustrado porque sabe que este mundo não existe. Agora, a história de Harry e Sally é tão improvável que chega a se  aproximar da impossibilidade de se conjurar um patrono com uma varinha, no entanto existe sempre aquela esperança de que um dia pode acontecer, o que é simplesmente torturante. É uma esperança escondida em um recanto da alma, que a gente chega a esquecer que existe, e aí, vem um filme como esse e a desperta, para o desespero de nossa mente racional.
Por isso que, no que diz respeito a romances, tenho como filmes favoritos E o Vento Levou e Casablanca, pois a frustração final dos personagens se assemelha àquela em que a maioria de nós se encontra mergulhada, se aproxima mais da realidade da maior parte da população, para a qual não há finais felizes.
Por estas e outras que, para fugir do real, vou tentar me agarrar mais às histórias fantasticas, buscar JK Rowling, Anne Rice,  JRR Tolkien, ou quaisquer outros que me apresentem histórias sem esperança alguma de realidade.

Cristiane Neves
29/06/10
13:53

           

terça-feira, 22 de junho de 2010

Maió e Mió Nostalgia do Mundo




O Maió e Mió São Joao de Minas! Era esse o nome da festa. Não vou questionar a validade do título. Alias, a festa em si não é o importante, mas o clima em que a cidade se encontrava. Todo o lugar estava enfeitado para a festividade do padroeiro, as pessoas estavam alegres e havia muita gente de fora. Difícil era achar um carro que realmente tinha a placa de Caratinga.
            Como não foi gostoso chegar em casa e encontrar bandeirolas secando na copa! Foi inevitável que a lembrança de minha infância me assaltasse. De repente era como se eu tivesse um vestido de retalhos pronto em meu guarda – roupas esperando pelo dia em que rodopiariam no pátio da escola, durante a quadrilha ensaiada por tanto tempo pela tia.
            Como se essa festa junina toda não fosse o suficiente para causar uma total volta à infância, ainda resolvem fazer um monumento em homenagem ao filho favorito da cidade, Ziraldo. Uma estátua de dez metros do Menino Maluquinho em plena BR-116. Foi então que as lembranças não pararam de passar por minha mente. Eu, que já sou nostálgica por natureza, tive todos os incentivos possíveis para me deixar tomar pela saudade.
            Lembrava - me do Bichinho da Maçã, o livro autografado que meu irmão tinha ganhado de minha avó. E na casa dela como era ótimo ler, ou melhor, ver as figuras das historinhas da Super Mãe. Liam para mim (eu deitada no “minhocão”, uma almofada grande, amarela e marrom) e eu não entendia muitas das piadas, mas não importava. Era tão legal aquela coletânea de histórias curtinhas, sempre a Super Mãe atrapalhando a vida de seu filho que, aparentemente, vivia num eterno carnaval e atrás do máximo de mulheres possíveis.
Outra era o Flicts, a coitadinha da cor que ninguém queria. Esse eu mesma li, e até cortei o dedo uma vez em suas folhas de um papel rígido, deixando a marca de sangue lá para sempre. Era uma história linda, com um final que eu nunca vou esquecer. Ainda recordo de quando li pela primeira vez, eu fiquei realmente muito preocupada com o que teria acontecido com aquela pobre cor que foi subindo, subindo e sumiu. E quando veio a frase “Mas ninguém sabe a verdade, a não ser os astronautas...” eu não agüentava mais a curiosidade, meus olhos pularam imediatamente para a outra página e “que de perto, de pertinho, a lua é Flicts”. Ah, mas que felicidade saber que tinha sido esse o destino da cor. Saber que tinha ficado com uma lua inteirinha para ele, que todas as noites, embora as pessoas não soubessem, ele estava lá, no céu. Depois disso passei um bom tempo privilegiando aquele tom de marrom na minha caixa de lápis de cor.
É claro que era muito triste saber do que nunca voltaria. Andar pela cidade e saber do quanto mudara desde que eu era uma criança aprendendo a ler. Muito ruim pensar que eu nunca mais sairei com meus pais para passear e ir no “barzinho do vovô”, tomar o “feijão amigo” tão gostoso que a cidade vai ter de aprender a viver sem, pois o bar do gordo não existe mais. Meus avós aposentaram com toda a razão, mas dói pensar que catar bala e chicletes, nunca mais.
Agora estou aqui em Juiz de Fora, longe de minha cidade natal há quatro anos. Aquela já não é mais a cidade em que nasci, não tem mais os amigos que passavam a tarde no colégio à toa, só conversando e matando o tempo fazendo brincadeiras do compasso.  Mas aquela cidade eu ainda guardo e visito de vez em quando, como aconteceu no Maió e Mió São João de Minas.

Cristiane Neves
2002

terça-feira, 15 de junho de 2010

Ilha Deserta





“No man is an island” – John Donne

Nunca fui uma pessoa adorável. Adorável no sentido de alguém de quem as pessoas gostem gratuitamente e instantaneamente. Sim, desde de bebê ouço as pessoas dizerem que pareço boneca, por ter feições delicadas e sempre aparentar juventude que não possuo. No entanto, apesar desta dádiva da natureza, não tenho o temperamento para acompanhar minha aparência. Não sou paciente com as pessoas, não sou simpática com os que me cercam, e não me esforço para me fazer desejável.


Talvez minha auto confiança seja meu problema. Conheço muito bem minhas qualidades, infelizmente as valorizo muito mais do que os que me cercam. Se para mim inteligência, educação e perspicácia são dons essenciais, sei, com muito pesar no coração, que para o resto da sociedade isto pouco importa. É o peso de ser original, diferente, fugir do ordinário. Não quero mudar quem eu sou. Gostaria de poder me unir à minha tribo, pertencer a um grupo do qual, ao menos para uma pessoa, eu fosse essencial. Mas faz tanto tempo desde a última vez em que isso aconteceu, desde que alguém fez questão de minha presença...


Se por um lado eu não mudaria, por nada no mundo,  meu jeito de ser, minha inteligência, minha perspicácia, meu introspectismo, visto que são estas as qualidades que me intrigam e cativam, por outro sei que são as características que me mantêm em minha ostra. E, ai de mim, não há maior verdade do que a seguinte afirmação aristotélica: “O homem é um animal social”

Cristiane Neves
20/12/09
00:06

terça-feira, 8 de junho de 2010

PLATONISMOS PLATÔNICOS V


Ou Três Momentos de Reflexão



- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei o barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora como música. E depois, olha! Vês, lá longe, o campo de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelo cor de ouro. E então serás maravilhoso quando me tiverdes cativado. O trigo que é dourado fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...
A raposa então calou-se e considerou muito tempo o príncipe:
- Por favor, cativa-me! disse ela.

O Pequeno Príncipe - Antoine de Saint-Exupéry

Eu não consigo compreender a facilidade com que certas pessoas se apaixonam. Tantas amigas vejo entrarem e sairem com frequência de relacionamentos, que muitas vezes me pergunto qual seria o problema comigo. São bonitas, claro, simpáticas, atraem sem dúvida pretendentes, e não é isso que me é surpreendente, mas sim a rapidez com que se vêm envolvidas com estes pretendentes. Se deixam encantar, empolgam, se mostram esperançosas, otimistas.
No que diz respeito a minha vida amorosa, talvez ela seria mais simples se eu também me envolvesse com esta facilidade. Mas assim como sou, até no que diz repeito aos homens meus gostos são complicados. E eu também sou complicada. Complexa.


Lembro-me uma noite, na época da faculdade, já quase uma década atrás, quando sentavamos bebericando vinho e ouvindo Beatles e Adriana Calcanhoto pelo violão e voz de uma amiga, artista talentosa. Naquela ocasião dividiamos as pessoas em simples e complexas. Obviamente uma divisão simplista demais, para uma humanidade tão complexa. Mas ainda assim, crendo detentoras da chave para a compreensão das pessoas, através da simples divisão em categorias, afirmavamos como os homens complexos eram exatamente aqueles que atraiam e justamente os mais complicados de se lidar.
O que qualificava alguém enquanto complexo? As pseudo-filosofias em que mergulhávamos. O pseudo-intelectualisto, intelectuóide, que se apresentava em diferentes formas. Fosse através de uma compreensão aprofundada de autores franceses como Roland Barthes (aja saco) ou Charles Baudelaire (perfeito!); ou ainda a sensibilidade musical capaz de “enxergar” como melodia o som do arranque de um carro; ou a arte de capturar a imagem ideal, calculando com perfeição a abertura do diafragma e a velocidade do obturador, determinando o tempo de exposição do filme, além do enquadramento que, dando a impressão de acaso fortúito, é fruto de profundo estudo e preparo.
Era neste meio que vivíamos imersos. Jovens sedentos por conhecimento, com sonhos e esperanças inconfessos de grandezas artísticas. Porque era isso que nos unia a todos, o amor pela arte. Futuros jornalistas, claro, mas a subjetividade era tão marcante em nossas personalidades, que muitas vezes era dificil acreditar que algum dia conseguiriamos escrever matérias isentas de pontos de vista ou digressões filosóficas.
Hoje me encontro jornalista formada. Como é inerente à minha profissão, tive contato com os mais variados tipos de pessoas, nas mais diversas situações. Encontrei pobres na tristeza de uma vida miserável e ricos na alegria de uma existência farta de prazeres. Estive com mães que perderam filhos e filhas que perderam pais. Conversei com traficantes, assassinos, policiais, vítimas, testemunhas, bandidos, herois. Vi o mundo de cabeça para baixo, as pernas grudadas ao lado do corpo, braços a sair pela barriga. Mundo deformado, que não faz sentido. Conheci também pessoas que encontravam os prazeres e alegrias nas coisas mais simples da vida. Fosse se sentir útil ao realizar um trabalho, ou o prazer em contar e recontar memória centenária, ou mesmo de poder cantar, dançar, demonstrar sua arte, ainda que público não existisse.
Tantas experiências, tantas pessoas diferentes, mostram cada vez mais a futilidade em tentar separar os homens em complexos e simples. Em verdade somos todos simples e complexos ao mesmo tempo, dependendo do momento em que nos encontramos, as situações que estamos passando. Somos todos uma mesma humanidade. Quando sofremos, sofremos. Quando estamos felizes, estamos felizes. É simples assim. Somos todos capazes de coisas maravilhosas e coisas terriveis. É complexo assim.
A verdade é que ninguém é especial, somos todos iguais. Bilhões de homens, mulheres, crianças, esperando serem cativados. Pois, como explica a Raposa de Saint-Exupéry, apenas depois de sermos cativados e de cativarmos nos tornamos diferentes para aquela pessoa cativadora ou cativa. Antes disso, somos apenas mais uma rosa como todas as outras, em um jardim infinito, sem nada que nos destaque.

E então, aqui me tenho: uma pessoa que dificilmente se deixa cativar. Raposa arisca, teme que todos os homens não passem de caçadores. Por muito tempo permaneceu selvagem, solta na natureza, e assim continua, sem Pequeno Príncipe que a cative.
Mas um dia um Príncipe há de chegar, e, como na historia, esta Raposa também se verá, aos poucos, cativada. Mas o Príncipe a deixará, pois o roteiro não muda. Para a pobre Raposa restará apenas o prazer em observar os campos de trigo e relembrar o amigo perdido. Entre lágrimas ainda afirmará que saiu no lucro, pois ao menos agora os campos de trigo têm um valor muito, muito maior em seu coração.

Cristiane Neves

terça-feira, 1 de junho de 2010

O Novo Garoto na Cidade




There's talk on the street; it sounds so familiar
Great expectations, everybody's watching you
People you meet, they all seem to know you
Even your old friends treat you like you're something new

Johnny come lately, the new kid in town
Everybody loves you, so don't let them down
(...)
You're walking away and they're talking behind you
They will never forget you 'til somebody new comes along
Where you been lately? There's a new kid in town
Everybody loves him, don't they?
Now he's holding her, and you're still around
There's a new kid in town
just another new kid in town
Everybody's talking 'bout the new kid in town,

(New Kid in Town - Eagles)


Tem um novo garoto na cidade.
É de muito estudo e pouca idade,
Um símbolo de responsabilidade.
Pragmático, o moço se empenhou,
Tanto fez, tanto leu, e tanto lutou
Que por fim com esforço alcançou
Os sonhados sucessos profissionais.
Nem mesmo os veteranos jamais
Testemunharam talentos iguais.
Mas todo este seu conhecimento
Tinha apenas nas leis fundamento.
O moço não conhecia o tormento
A que se sujeita toda a população
Que diariamente pede em oração
Perdão, absolvição e salvação.

Cresceu cercado de amor e privilégio
Em casa, na rua, no clube e no colégio
A todos encantava seu talho régio.
Abençoado com inteligência e berço
Da vida ainda não conhece um terço,
Mas teve certeza desde o começo
De que tudo o que quer é possível.
O garoto seguiu realizando o incrível,
Sempre incansável, sempre invencível.
No funcionarismo público ingressou.
Para longe de casa a carreira o enviou
E, por fim, naquela cidade ele chegou.

Mas pobre novo garoto na cidade!
Ainda desconhece a maldade
Presente na personalidade
Das pessoas deste município.
E foi assim que, de princípio,
Chamou atenção do mulherio.
Aos poderosos, ele deslumbrou,
Aos influentes, ele encantou,
Por fim a todos conquistou.

Ó pobre garoto! À cidade mal chegou
E dela, mais uma vítima se tornou.
Cedeu a tentações, pecados abraçou,
Mergulhou em vícios e em vaidades,
Somem a personalidade e vontades,
Desaparecem as virtudes e bondades.

Aos poucos ele se transformará,
As opiniões certas aprenderá
E os gostos aceitáveis conhecerá.

Em breve, do mundo reluzente,
Dos ricos, dos bonitos e influentes
Se tornará habitante permanente

Por anos viverá feliz no prazer
Dos eternos luxo, luxúria e lazer
Agora alcançados sem nada fazer.
Ao garoto jamais faltará amizade,
Mas o preço de toda esta felicidade
Será a perda de sua identidade.

Então, um dia, o novo garoto acordará
E o reflexo no espelho não reconhecerá.
Apenas uma abelha no enxame ele verá.
Será um homem feito, de idade aparente,
Mantendo o comportamento adolescente.
E por um momento, seu olhar descrente,
Perguntará: “Cadê aquele garoto sedutor,
Que com toda a cidade era encantador?”
E então perceber-se-á homem, com horror.

O garoto novo na cidade não mais existe
E a sua realidade, terá de admitir, é triste.
Ele já é jornal de ontem, e agora subsiste
Repetindo as mesmas atitudes eternamente
Vivendo a rastejar no chão como a serpente
Em busca de presas para atacar, de repente.
Chacoalhando a cabeça terá fim o devaneio.
Se afastará do espelho e esquecido o anseio,
Ele voltará a frequentar aquele mesmo meio
ao qual, sem ver, aos poucos se acostumou,
Junto ao grupo que todo frescor lhe robou,
Com quem anos de juventude disperdiçou.

O homem antigo na cidade enfim vai caçar,
Quer uma vítima para ao enxame agregar,
Tomar-lhe a originalidade e o ciclo continuar.
Mas o mais triste, amigos, ainda não contei.
Aquele mesmo que andou com porte de rei,
Aquele mesmo que viveu para impor a lei,
Aquele que por um instante se viu acabado
E contemplou, rendido, o fim de seu reinado,
Ele abraçou e aceitou seu destino malfadado.
Com os companheiros seguiu a tirar proveito
De tudo e todos, e chegou até a prefeito.
Até o último de seus dias viveu satisfeito,
Exceto pelos raros momentos de clareza.
E isto é mais, muito mais, tenha certeza,
Que a maioria de nós alcançará. Tristeza!


Cristiane Neves
26/10/09

terça-feira, 25 de maio de 2010

Formigas




Estava bebendo vinho. É sempre bom beber vinho tarde da noite, sozinha. Se você bebe cerveja à noite, sozinho no escuro, é patético, se bebe caçacha, você é um bebado desprezivel, mas se é vinho, então você tem estilo, é chique, ainda que triste, patético e solitário como nas outras opções.
Então, como dizia, estava bebendo vinho, sozinha, no escuro, e me deu uma grande vontade de quebrar a taça que segurava. Não que tivesse bebido tanto, uma taça  e meia até o momento, mas aquele desejo de destruição não me abandonava.
Primeiro pensei em lançar a taça pela janela, vê-la se espatifar dois andares abaixo, o rosto das pessoas se voltando para cima, afim de ver o que havia “derrubado” o copo. Mas não, aquilo não serviria. O que queria realmente era pegar a taça fina e esmagá-la em minha mão. Seria fácil. Os pequenos cacos de vidro penetrariam em mim, eu sangraria, sentiria a realidade do fim daquele cristal em minha propria pele. Tive de me perguntar por que queria tal coisa. Era a dor que eu precisava sentir? Será que necessitava que a realidade me batesse na cara para provar que eu ainda existia?
Não, era mais a sensação de poder. Queria ver que eu podia quebrar aquele vidro se quisesse. O fato era que, uma vez quebrada, a taça estaria dividida em pequenos pedacinhos, impossiveis de serem reunidos. Era algo irremediavel. Eu sabia que, uma vez feito, não poderia ser desfeito e era isso que eu queria.
Me lembrava de um acontecimento durante as ferias de verão. Eu devia ter uns cinco anos de idade, ainda aprendendo o beabá. Estava brincando na calçada de minha casa. Era o fim da tarde. Ainda não havia escurecido e o concreto emanava um calor ao mesmo tempo gostoso e sufocante. Eu observava como as formigas carregavam as folhas do mato que cismava em crescer independente do asfalto. Elas seguiam em filas muito mais organizadas que as de nossos passeios de escola. Foi naquele momento que, pela primeira vez, percebi aqueles bichinhos como seres vivos. Vi que eles faziam parte de uma comunidade, que interagiam. Conectei-me com aquelas criaturinhas. Elas respiravam como eu.
            Eu não podia relacioná-las com os desenhos animados, pois sabia que eles eram menos que fantasmas, eram apenas faz de conta. Sendo assim, não podia comparar a formiga atômica com aqueles seres que tinha diante de mim. Acho que, em meu subconsciente, todo o resto do mundo, à parte de mim mesma, não passava de cenário. É assim quando somos crianças, somos muito egoistas. Já temos dificuldade em nos descobrir, quanto mais em descobir que outras pessoas existem. Outras espécies então, impensável. Não passavam, talvez, de animais fofinho que queria apertar, ou bichos nojentos dos quais queria fugir. Enfim, aos cinco anos de idade, me dei conta da existência da formiga como coisa real.
            Debruçando-me sobre a fila de formigas, estiquei meu dedo e esmaguei uma delas. A que carregava a maior e mais verde das folhas. Fiquei observando as outras formigas se desviando e seguindo o caminho. Aquela formiga estava morta e nada poderia trazê-la de volta. E aquela foi a primeira lição que aprendi ao perceber que havia outros seres além de mim mesma. A lição sobre poder.
Eu tinha poder sobre a vida e a morte daquelas criaturinhas trabalhadoras. Mas a segunda lição não tardou a vir: o remorso. Percebi que o que havia feito era irremediável, sabia que havia tirado uma vida e nada poderia trazê-la de volta. Não posso descrever a tristeza que senti. Não foi daquele tipo em que a gente desaba em choro (aliás, nunca fui de “desabar em choro”), foi o tipo de tristeza que cria um nó na garganta, uma revolta no estômago e um aperto no coração. É por isso que  a memoria permanece, 20 anos depois. É por isso que, apesar de fazê-lo, ainda me sinto mal ao matar uma barata. E é por isso, creio eu, que queria quebrar a taça. Para repetir a sensação do poder irremediavel que senti naquela tarde de verão.

Cristiane Neves
11/04/07

PS: Eu não quebrei a taça. Temo o irremediável.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Idolatria



Tenho na ponta da lingua os nomes de meus poetas favoritos. Tão diferentes em seus estilos e temáticas que cada um deles me atende de forma diversa, dependendo do que estou sentido, do que quero expressar e não sei como.

Porque é para isso que os poetas e os grandes escritores existem. Eles sabem traduzir em palavras os sentimentos que não reconhecemos e os pensamentos que não conseguimos organizar. E o fazem com tanta maestria que tornam até os sentimentos ruins, as histórias tristes, as imagens feias e as realidades mais brutais em belas obras de arte, perfeições estéticas e estilísticas até quando, contraditoriamente, tentam se afastar de perfeições, estéticas e estilos. Como exemplo, cito Vinícius de Moraes. A grande estética de seus sonetos trazem sonoridade aos temas mais dolorosos.

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
(Soneto de Separação – Vinicius de Moraes)

Em busca desta beleza e compreensão, dependendo de como me sinto, recorro a um de meus autores favoritos. É como escolher a roupa que se vai vestir. Você abre o guarda-roupas, olha as opções, pensa se está frio ou quente, se chove ou faz sol, pondera sobre o local de destino e o que seria apropriado e diante destes fatores escolhe a vestimenta. O mesmo acontece com a poesia.
Se me sinto irônica e desiludida, querendo jogar a verdade na cara do mundo, cansada das convenções sociais, recorro a Manoel Bandeira:

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o
cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
(Poética - Manoel Bandeira)

Ele foi mestre se superando física e literariamente. Que bom que a Dama Branca demorou para chamá-lo e levá-lo a Passárgada, pois assim temos uma vasta obra para qual recorrermos.

Se, no entanto, encontro-me lúgubre, triste, fatalista e irremediavelmente romântica, Álvares de Azevedo, o jovem eterno, herói de todos os adolescentes, se torna então meu mestre. Ele me fala dos mistérios do mundo e deste desejo em ter o inalcançável.

Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!
Não levo da existência uma saudade!
E tanta vida que meu peito enchia
Morreu na minha triste mocidade!
(Adeus, meus sonhos! – Álvares de Azevedo)

Do inalcançável também me falou um português que viveu há meio milênio atrás. Feio, cego de um olho, o patriota soldado Luís de Camões sabia descrever o amor como ninguem, principalmente aquele platônico, que ao mesmo tempo alimenta e tortura o espírito.

Transforma-se o amador na coisa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
(Luís Camões)

Destaco agora uma poetisa que, por seu sexo, é a que melhor traduz o que se passa dentro da mulher quando apaixonada. Em seus poemas encontro exemplos para quando me deparo com felicidade, tristeza ou rejeição, saudades, orgulho... Ela fala até das contradições femininas.

Odeio-te também. O teu olhar ideal
O teu perfil suave, a tua boca linda,
São belas expressões de todo o humano mal
Que inunda o mar e o céu e toda a terra infinda.
(Confissão - Florbela Espanca)

Por sua admirável compreensão da alma feminina, volto a citar aqui Vinicius de Moraes. Ele não se destaca apenas pela grandiosidade em cantar a realidade do amor, pregando sua eternidade perecível. Também o adoro pelos diversos momentos em que se mostrou profundo conhecedor do modo de pensar e agir das mulheres, de forma a saber exatamente o que fazer para agradá-las.

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor. (Para viver um grande amor – Vinícius de Moraes)

E quanto ao maior de todos os poetas brasileiros? É claro que Carlos Drummond de Andrade não poderia faltar em minha lista. Um poeta que viva por muito tempo e presencie tantas mudanças sociais como ele está fadado a ter fases diferentes em sua poética. Desde seu princípio modernista e pessimista, ainda na década de 30, até chegar nos anos 70 e 80, tão saudosista, o mineiro nos presenteou com incríveis provas do que o talento e a criatividade do homem podem alcançar. Ainda em 1930 o bardo já falava de suas diferentes faces, terminando o poema com ironia maestral.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
(Poema de Sete Faces – Carlos Drummond de Andrade)

E mesmo depois de morto o poeta seguiu a surpreender pela descoberta dos poemas eróticos que compôs ao longo da vida e nunca publicou.

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica
Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
(A Bunda, que engraçada – Carlos Drummond de Andrade)

Mas dentre poetas de inúmeras faces nenhum supera Fernando Pessoa. Meu favorito, o mais completo, o mais complexo, o mais eu. Principalmente na pessoa de Álvaro de Campos e toda sua metafísica (ou falta dela), Pessoa soube como ninguém traduzir meus pensamentos, sentimentos, filosofias.

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
(Lisbon Revisited (1923) - Álvaro de Campos)

E é por ter acesso, por conhecer, por me encontrar nos textos destes gênios que uma folha em branco (ou novo documento no word) me assusta tanto. Como ter a coragem de elaborar um texto quando outros tantos já disseram o mesmo e tão melhor do que eu? Por que este esforço inútil?

E ainda é triste perceber que o que conseguimos passar para o papel nunca é o que sentimos, jamais alcançamos a transcrição completa do que se passa dentro de nós. Esta corrente que une sentimentos e palavras é falha, faltam elos que nunca serão encontrados.

Lembrar-me que até este questionamento já foi levantado por meus ídolos frusta ainda mais, mas ao mesmo tempo traz aquele conhecido consolo em ter pares neste mundo.

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!
(Tortura - Florbela Espanca)

Para encerrar este desabafo citando o meu favorito, lembro que não é apenas o fato de não conseguirmos transmitir tudo o que queremos que é triste. Uma vez escrito o texto, o leitor fará uma leitura que se interpreta pelo que ele próprio sente. Esta interpretação, assim, deixa de ser aquilo que o autor conseguiu colocar no papel e se dista ainda mais do que ele desejava externar. Por isso Florbela mente, por isso Pessoa finge. E eu sigo com eles.

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
(Autopsicografia – Fernando Pessoa)

Cristiane Neves
12/05/10
02:34