Queria ser mestre em alguma arte. Ter segurança no traço para dar vida às imagens que povoam minha mente, poder moldar com minhas mãos as formas do mundo, ser capaz de captar fragmentos singulares da vida. Queria ter a habilidade de levar às pessoas beleza (ainda que grotesca) e reflexão.
Queria me dividir ao meio, explodir em inúmeros pedacinhos e me lançar ao ar. Ser captada pelas antenas e satélites, ser respirada pelas pessoas espalhadas por todo o planeta. Alcançar seus pulmões, levar-lhes ar e dar-lhes fôlego, ou ainda fazê-las engasgar, se assim elas pudessem expelir o que não lhes faz bem.
Queria levar a todos uma compreensão maior que eu não tenho, de que o entendimento é possível, de que somos todos um único ser, um vitral, um mosaico, uma colcha de retalhos que não sei tecer.
Queria ter a genialidade de Pessoa em ser tantas pessoas, e ter a força de Drummond para lutar com palavras. Queria os olhos de Monet e os ouvidos de Chopin. Queria amar para ter ouvidos capazes de ouvir e entender estrelas.
Mas eu encaro a folha em branco sobre a mesa com a angustia do que nem sei (o que sentiu Deus antes de criar a luz?), e hesito em macular o papel. Tenho à minha frente a possibilidade do tudo. Sentimentos variados e desconexos se cruzam, percorrendo todo o meu corpo. Eu temo o nada. Finalmente encosto a caneta no papel e, me concebendo, em sonho, gênio, vou escrever essas linhas.
Queria ser mestre em alguma arte.
Cristiane Neves
28/06/2006

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