
Ela estava estirada sobre a espreguiçadeira na beira da praia. A lua iluminava o céu, mas nenhuma estrela lhe fazia companhia. A mulher segurava uma taça de champagne contra a luz que emanava da lua e dos postes que clareavam a orla. Pequenas esferas de gás se acumulavam no dourado da bebida. Sua disposição na taça, expostas contra a luz as fazia parecer uma constelação, capturada para toda a eternidade, dentro de um copo. As estrelas aprisionadas seriam engolidas pela deusa que, deitada, sentia a areia alva em seu pés e esperava pelo ano novo.
A multidão aumentava com o passar das horas, mas ela não os via. Olhos fixos nas borbulhas do champagne que a faziam lembrar de tantas coisas sem importância. Uma música italiana, uma crônica e décadas passadas apenas imaginadas.
De vez em quando levava a taça aos lábios e bebericava o líquido que continha. Os colegas com quem viera à praia por vezes a chamavam a participar da festa, mas ela os afastava com um gesto e palavras vagas, preferindo apenas a companhia da taça e dos astros que continha.
O vestido leve mal a cobria, sendo erguido pelo vento litorâneo. O biquini por baixo, exposto pela alça caída, era a unica coisa que a fazia parecer pertencer àquele quadro. Ou pelo menos foi esta a sensação que o homem que a observava teve. De pé junto à mesa de um quiosque, bebendo cerveja e rindo com os amigos ele não pôde deixar de vê-la. Ela parecia uma ilha solitária cercada por um mar de pessoas às quais se mantinha indiferente.
O tempo passou. Homens e mulheres vestidos de branco se adiantavam ao mar com ofertas a Iemanjá. O futuro estava cada vez mais próximo e enchia o coração das pessoas de esperança. Abastecido com essa sensação de possibilidades vindouras o homem resolveu se aproximar da mulher.
Ele era um ser comum, destes que existem aos milhares pelo mundo. Seja culpa da globalização, do presidente, de alienígenas ou de nossos pais, o fato é que a cada dia que passa as pessoas estão cada vez mais iguais. Mesmos gostos, mesmo passado, mesmas experiências, mesmos programas televisivos a formar suas personalidades. E este homem era feito do mesmo molde que a maior parte da sociedade, e isto foi a primeira coisa que ela pensou ao vê-lo se levantar de sua cadeira, tomando coragem para abordá-la.
A verdade é que ela era tudo menos ordinária. A maldição e a benção. Ambos os lados de uma mesma moeda com a qual ela havia sido presenteada quando de seu nascimento. Um fardo a carregar e ainda uma luz a iluminar a escuridão. É o mito da caverna de Platão e o eterno paradoxo sobre o que é melhor, ter o conhecimento ou viver na ignorância. Talvez o mais certo é que lhe fosse um fardo, pois lhe permitia ver que fracasso se tornara. Era inteligente o suficiene para reconhecer como deveria ser para alcançar o gênio desejado, mas não possuia o suficiente para ser gênio ela mesma.
A reflexão continuava, enquando ela observava aquele homem forte e bronzeado se aproximar. O macho dominante de seu grupo, um exemplo de como, ainda que racionais, os seres humanos não passam de animais. O instinto de se mostrar superior aos que lhe rodeiam, e, simultaneamente, aceitar a superioridade daqueles que se encaixam melhor no perfil determinado pela sociedade, seguindo-os e lhes imitando o exemplo, os buscando para resolução de problemas, conselhos, e vendo neles modelos a serem copiados. O macho-alfa.
O pensamento final da mulher, quando o homem se ajoelhou ao lado de sua cadeira, na areia fina e fria da praia, era de que ele não passava de um estereótipo. Ela se perguntou se, parada ali como estava, com seu visual pouco ortodoxo, não estaria por acaso se encaixando, ela própria, em um estereótipo que pareceria explicá-la àquele homem antes mesmo de trocarem uma palavra. Estaria o estereo (infrutífero) – tipo (caracter) certo quanto a ela? Estaria ela certa quanto a ele?
_ Tá boa sua bebida? – foi a primeira frase que ele formulou. Não era a frase irônica e bem humorada que ela esperava ouvir de seu príncipe encantado.
_ É a bebida oficial das comemorações. Ano novo, noivados, casamentos, nascimentos, todas as datas ditas importantes devem ser brindadas com champagne, provavelmente mais pelo seu valor econômico do que por seu gosto. Independente do motivo que faz essa bebida tão importante não posso deixar de me perguntar por que a passagem de um dia para o outro, que nada mais é que uma simples convenção social, mereça tanto destaque quanto os demais eventos que eu citei.
O homem coçou a cabeça. Não tinha entendido metade das coisas que ela tinha acabado de falar. Olhou para o mar, pensando que talvez um mergulho na água fria clarearia sua mente embriagada.
A mulher sorriu, vendo a confusão no rosto do jovem bronzeado. Então ela se espreguiçou e sacudiu a cabeça, como que tentando se despertar para a vida real. Virou o resto de bebida em sua taça e sentou ereta na cadeira.
_ Então, você vem muito por aqui? – ela perguntou, sem consequência.
Ele sorriu, desistindo do banho frio e se prendendo nos olhos da garota, iluminados pelos fogos de artifício.
Pelo menos ela começaria o ano fingindo ser “normal”.
Cristiane Neves
12/01/09
Cris...
ResponderExcluirMuiiiiito belo... fiz uma analogia, mas n vou comentar por aqui e sim pessoalmente...
TALVEZ SER 'DIFERENTE' SEJA MAIS 'NORMAL' DO QUE IMAGINEMOS...
PS: Serei uma das 5 fuçadoras deste blog! ACREDITE NISSO! hauhauhauhau...
ADOREI! Bjos.
Um brinde ao normal, real, surreal, natural e as nossas ainda possíveis escolhas e autenticidade de escolher em qual destes diferentes mundos queremos pertencer!
ResponderExcluirBem vinda Cristiane a um espaço único dos nossos pensamentos e mais íntimos desejos de expressar o que sentimos, não temendo avaliações e sim diversificadas percepções...
Já sou a partir de agora leitora assídua, mas todo leitor, expectador precis de alimento...e vou contar com esta fonte maravilhosa!
Beijos amiga forever!!!
Raquel Borsari